quarta-feira, 27 de junho de 2012

Moral em Kant


Moral em Kant
A máxima expressão do pensamento iluminista encontra-se em Immanuel Kant (1724-1804), que, além da Crítica da razão pura, escreveu a Critica da razão prática e a Fundamentação da metafísica dos costumes, nas quais apresenta sua teoria moral.
Enquanto na Critica da razão pura indaga sobre ''o que podemos conhecer", na Crítica da razão prática trata das possibilidades do ato moral ao perguntar sobre "o que podemos fazer". Ora, enquanto tudo na natureza age segundo leis, apenas o ser humano age segundo princípios, o que exige dele a capacidade de escolha: portanto, só ele tem uma vontade. E como para agir racionalmente precisa de princípios, a vontade é a razão prática, o instrumento para compreender o mundo dos costumes e orientar o indivíduo na sua ação.

O imperativo
Analisando os princípios da consciência moral, Kant usa o conceito de imperativo, que pode ser:
a) segundo um tempo verbal, uma ordem: "Faça!", "Retire-se!";
b) na linguagem comum, o que se impõe como um dever: "Respeitar as pessoas é um imperativo para mim;
c) para Kant, o imperativo é um mandamento da razão que serve para orientar a ação e se exprime pelo verbo dever. Distingue então dois tipos de imperativos:
• o imperativo hipotético ordena uma ação como meio de alcançar qualquer outra coisa que se queira; ou seja, a ação é boa porque me possibilita alcançar outra coisa além dela (por exemplo, um objeto, o prazer, o interesse, a felicidade).
• o imperativo categórico é o que visa a uma ação como necessária por si mesma, ou seja, a ação é boa em si, e não por ter como objetivo outra coisa; portanto, é assim chamado por ser incondicionado, absoluto, voltado para a realização da ação tendo em vista o dever.

Ao distinguir os imperativos hipotéticos dos imperativos categóricos, Kant conclui que a vontade humana é verdadeiramente moral apenas quando regida por estes últimos. Nesse sentido, rejeita as concepções éticas que predominavam até então, quer seja da filosofia grega, quer seja da cristã, que norteiam a ação moral a partir de condicionantes como a felicidade, o prazer ou o interesse. Para o sujeito racional a ação não deve ser movida por interesses com o objetivo de ser feliz ou evitar a dor, ou ainda para alcançar o céu ou não sofrer a punição divina.

Pelo imperativo categórico, o agir do ponto de vista moral funda-se exclusivamente na razão. Mais ainda, a lei moral que a razão descobre é universal, pois não se trata de descoberta subjetiva. Ela é necessária, pois toma por base a pessoa como ser racional e preserva a dignidade humana. Nas palavras do próprio Kant:
Age apenas segundo uma máxima tal que possas ao mesmo tempo querer que ela se torne lei universal.
 Exemplificando, suponhamos a norma moral "não roubar":
• para a concepção judaico-cristã, o fundamento da norma encontra-se no sétimo mandamento de Deus: "Não furtarás".
• para os teóricos jusnaturalistas, funda-se no direito natural, comum a todos os seres humanos;
• para os empiristas (como Locke e Condillac), a norma deriva do interesse próprio, pois o sujeito que a desobedece será submetido ao desprazer, à censura pública ou à prisão;

Para Kant, a norma enraíza-se na própria natureza da razão. Caso se aceite o roubo e consequentemente o enriquecimento ilícito, de modo a elevar-se essa máxima (pessoal) ao nível universal, haverá uma contradição: se todos podem roubar, não há como manter a posse do que foi furtado.

Autonomia e dignidade
A autonomia da razão para legislar supõe a liberdade e o dever. Todo imperativo impõe-se como dever, mas essa exigência não é heterônoma – exterior e cega - e sim livremente assumida pelo sujeito que se autodetermina. É essa a diferença que Kant percebe entre a sua ética e as anteriormente propostas, porque para ele o indivíduo só está sujeito à sua própria legislação, ainda que ele admita que essa lei por ele erigida deve ser universal.

A ideia de autonomia e de universalidade da lei moral leva a um outro conceito: o da dignidade humana, e, portanto, do ser humano como fim e não como meio para o que quer que seja. Para tanto, Kant distingue as coisas que têm preço e as que têm dignidade. As que têm preço podem ser trocadas por um valor equivalente, mas as que têm dignidade valem por si mesmas e estão acima de qualquer preço. Isso significa que a moralidade por excelência é a que respeita qualquer ser humano como fim em si mesmo e não meio para o que quer que seja. Portanto, apenas os seres humanos - e qualquer um deles - têm dignidade.
Assim diz Kant: Age de tal maneira que uses a humanidade, tanto na tua pessoa como na pessoa de qualquer outro, sempre e simultaneamente como fim e nunca simplesmente como meio.

Ao acentuar o caráter pessoal da liberdade, Kant elabora as categorias da moral iluminista racional e laica. No entanto, a moral kantiana é formalista porque fundada na razão universal, abstrata, o que mereceu a crítica dos filósofos posteriores. A partir do final do século XIX e ao longo do século XX, os filósofos orientam-se no sentido de descobrir o sujeito concreto da ação moral.
Agir por dever ou conforme o dever.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

O ANTICRISTO

O ANTICRISTO
Friedrich Nietzsche

PRÓLOGO
Este livro destina-se a muitíssimo poucos. Talvez nem sequer um deles viva ainda. Serão esses, porventura, os que compreendem o meu Zaratustra... Como poderia eu misturar-me com aqueles para quem hoje se aprontam já ouvidos? Só o depois-de-amanhã me pertence. Alguns nascem póstumos.

Conheço demasiado bem as condições em que alguém me compreende e, além disso, com necessidade me compreende. Há que ser íntegro até à dureza nas coisas de espírito para aguentar a minha seriedade e a minha paixão; estar afeito a viver nas montanhas, a ver abaixo de si o mesquinho charlatanismo actual da política e do egoísmo dos povos. Importa ter-se tornado indiferente, é preciso nunca perguntar se a verdade é útil, se chegará a ser uma fatalidade... Necessária é também uma preferência da força por questões a que hoje ninguém se atreve; a coragem para o proibido; a predestinação para o labirinto. Uma experiência de sete solidões. Ouvidos novos para uma nova música. Olhos novos para o mais longínquo. Uma consciência nova para verdades que, até hoje, permaneceram mudas. E uma vontade de economia de grande estilo: reter conjuntamente a sua força, o seu entusiasmo... O respeito por si mesmo, o amor-próprio, a liberdade incondicional para consigo...

Pois bem, só esses são os meus leitores, os meus autênticos leitores, os meus predestinados leitores: que importa o resto? O resto é simplesmente a Humanidade. Há que ser superior à humanidade em força, em grandeza de alma – e em desprezo...
FRIEDRICH NIETZSCHE

O ANTICRISTO
1
Olhemo-nos de frente. Somos hiperbóreos – sabemos assaz como vivemos à parte. «Nem por terra nem por mar encontrarás o caminho para os hiperbóreos» – como já de nós dizia Píndaro. Para além do norte, do gelo, da morte – a nossa vida, a nossa felicidade... Descobrimos a felicidade, sabemos o caminho, encontramos a saída de milénios inteiros de labirinto. Quem mais a encontrou? O homem moderno talvez?
«– Não sei sair nem entrar; sou tudo aquilo que não sabe nem sair nem entrar» – lamenta-se o homem moderno... E é dessa modernidade que adoecemos – da paz podre, do compromisso cobarde, de toda a virtuosa sujidade do moderno sim e não. Esta tolerância e largeur do coração, que tudo «perdoa» porque tudo «compreende», é para nós o vento siroco. Antes viver no gelo do que no meio das virtudes modernas e de outros ventos do sul!... Fomos bastante ousados, não poupámos os outros nem a nós mesmos; mas, por longo tempo, não soubemos onde ir com a nossa bravura; tornámo-nos sombrios, chamaram-nos fatalistas.
O nosso fatum – era a plenitude, a tensão, a acumulação das forças. Tínhamos sede de relâmpagos e de actos, mantínhamo-nos o mais longe possível da felicidade dos fracos, da «resignação»... Pairava a tempestade na nossa atmosfera, a natureza, que nós somos, obscurecia-se – pois não tínhamos senda alguma. Eis a fórmula da nossa felicidade: um sim, um não, uma linha recta, uma finalidade...

2
O que é bom? – Tudo o que aumenta no homem o sentimento do poder, a vontade de poder, o próprio poder.
O que é mau? – Tudo o que nasce da fraqueza. O que é a felicidade? – O sentimento de que o poder cresce, de que uma resistência foi vencida. Não o contentamento, mas mais poder. Não a paz finalmente, mas a guerra; não a virtude, mas a excelência (virtude no estilo do Renascimento, virtù, virtude isenta de moralismos). Os fracos e os falhados devem perecer: primeiro princípio da nossa caridade. E há mesmo que ajudá-los a desaparecer! O que é mais nocivo do que todos os vícios? – A compaixão da acção por todos os falhados e fracos: o Cristianismo...

3
O problema que aqui apresento não é qual o lugar que a humanidade deve ocupar na sequência dos seres (o homem é um fim), mas que tipo de homem se deve criar, se deve pretender, como o de mais alto valor,
mais digno de viver, mais seguro do futuro. Este tipo de elevado valor já existiu bastantes vezes; mas como um feliz acaso, como uma excepção, nunca como um tipo desejado. Pelo contrário, foi precisamente ele o mais temido até ao presente, quase a própria realidade temível em si – e a partir desse temor o tipo inverso
foi desejado, criado, conseguido; o animal doméstico, a rês gregária, o doente animal humano – o cristão...

4
Ao contrário do que hoje se crê, a humanidade não representa uma evolução para algo de melhor, de mais forte ou de mais elevado. O «progresso» é simplesmente uma ideia moderna, ou seja, uma ideia falsa. O europeu de hoje vale bem menos do que o europeu do Renascimento; desenvolvimento contínuo não é forçosamente elevar-se, aperfeiçoar-se, fortalecer-se.

Por outro lado, ocorrem constantemente casos singulares nas mais diversas regiões da Terra e a partir das mais diferentes culturas, nos quais se manifesta efectivamente um tipo superior: Tipo que, em relação ao conjunto da humanidade, constitui uma espécie de ultra-homem. Tais golpes de sorte da grande ocorrência foram e serão, talvez, sempre possíveis. E até mesmo linhagens inteiras, tribos, povos, podem em certas circunstâncias representar um tal acertar no alvo.

5
Não há que embelezar nem que ornamentar o Cristianismo: ele travou uma guerra de morte contra o tipo de homem superior, baniu todos os instintos fundamentais de tal tipo, e desses instintos destilou o mal, o
pernicioso – o homem forte como o tipicamente abominável, o homem «proscrito». O Cristianismo tomou o partido de tudo o que é fraco, baixo, falhado, fez da oposição aos instintos de conservação da vida forte um ideal; e até corrompeu a razão nas naturezas intelectualmente mais fortes, ao ensinar a ter os valores superiores da intelectualidade como pecaminosos, como desorientadores, como tentações. O mais lamentável exemplo: a corrupção de Pascal, que acreditava na corrupção da sua razão em virtude do pecado original; ela estava corrompida, é certo, mas apenas pelo seu Cristianismo!

6
Diante de mim surgiu um espectáculo doloroso e aterrador: tirei a cortina da corrupção do homem. Pelo menos na minha boca, esta palavra subtrai-se à suspeita de conter uma acusação moral contra o homem.
Entendo-a – quero sublinhá-lo uma vez mais – isenta de moralismos: A tal ponto que percepciono sobretudo esta corrupção justamente como, até agora, de um modo mais consciente se aspirou à «virtude», à «divindade». Entendo a corrupção, como já se está a adivinhar, no sentido de décadence; a minha afirmação é que todos os valores em que agora a humanidade condensa os seus desejos supremos são valeurs de décadence.

Tenho por corrupto um animal, uma espécie, um indivíduo, quando perde os seus instintos, quando escolhe e prefere o que lhe é prejudicial. Uma história dos «sentimentos sublimes», dos «ideais da humanidade» – e é possível que eu tenha de a contar – seria quase explicar porque é que o homem está tão corrompido. Mas a própria vida é para mim o instinto de crescimento, de duração, de acumulação das forças, o instinto do poder; onde falta a vontade de poder, há degenerescência. A minha afirmação é que esta vontade falta em todos os valores supremos da humanidade que, sob os mais sagrados nomes, dominam os valores da decadência, os valores niilistas.

7
Chamam ao Cristianismo a religião da compaixão. A compaixão está em contradição com as emoções tónicas, que elevam a energia do sentimento vital; a compaixão tem uma acção depressiva. Quando alguém se compadece, perde a força. Pela compaixão aumenta-se e multiplica-se o desperdício de energia que o sofrimento, por si próprio, já traz à vida. O próprio sentimento torna-se, pela compaixão, infeccioso; em determinadas circunstâncias pode chegar-se a um desperdício global de vida e de energia vital, que se encontra numa relação absurda com o quantum da causa (o caso da morte do Nazareno). Eis o primeiro ponto de vista; mas existe outro ainda mais importante. Supondo que se mede a compaixão pelo valor das reacções que costuma suscitar, surge ainda mais claramente o seu carácter nocivo à vida. A traços largos, a compaixão contradiz a lei da evolução, que é a lei da selecção. Conserva o que está maduro para o declínio, luta em prol dos deserdados e dos condenados pela vida; e, pela abundância dos falhados de toda a espécie, que mantém vivos, confere à própria vida um aspecto lúgubre e duvidoso. Ousou-se mesmo chamar virtude à compaixão (em qualquer moral nobre surge como fraqueza); foi-se mais longe, fez-se dela a virtude, o solo e a origem de todas as virtudes – só que, e é necessário não o esquecer, a partir do ponto de vista de uma filosofia que era niilista, que inscrevia como divisa no seu escudo a negação da vida.

Schopenhauer tinha razão ao dizer: «A vida é negada pela compaixão, a compaixão torna a vida ainda mais digna de ser negada » – compadecer-se é a prática do niilismo. Uma vez mais: este instinto depressivo e contagioso contradiz os instintos de conservação e de valorização da vida: como multiplicador da miséria, mais ainda como conservador de todos os míseros, é um instrumento essencial na acentuação da décadence; a compaixão incita ao nada!... Não se diz «nada»: menciona-se em seu lugar «o além», ou «Deus», ou «a verdadeira vida»; ou ainda Nirvana, redenção, beatitude... Esta inocente retórica, proveniente do domínio da idiossincrasia religiosa e moral, revela-se logo muito menos inocente quando se elucida qual a tendência que ali se abriga, sob o manto de sublimes palavras: a tendência hostil à vida. Schopenhauer era inimigo da vida; por isso, a piedade transformou-se para ele numa virtude... Aristóteles, como se sabe, via
a compaixão num estado mórbido e perigoso, que seria útil extirpar de quando em quando por meio de um purgante: para ele, o purgante era a tragédia. Em nome do instinto vital, deveria efectivamente arranjar-se
um meio de enfraquecer essa acumulação de piedade, tão mórbida e nociva, como se nos depara no caso de Schopenhauer (e, infelizmente, também no de toda a nossa décadence literária e artística, desde S. Petersburgo a Paris, de Tolstoi a Wagner): que rebente... Nada de mais insalubre, no meio da nossa insalubre modernidade, do que a nossa compaixão cristã. É aí que importa ser médico, é aí que é preciso ser implacável e manejar o escalpelo – eis o que nos incumbe, eis a a nossa filantropia, eis o que nos faz filósofos, a nós, hiperbóreos!

8
É necessário referir quem olhamos como a nossa antítese: é preciso ter visto de perto a fatalidade, melhor ainda, é preciso tê-la vivido, é preciso ter nela quase perecido, para aqui já nada apreender de cómico
(o livre pensamento dos nossos senhores investigadores da natureza e fisiólogos é, a meus olhos, um gracejo; falta-lhes a paixão nestas coisas, falta-lhes sofrer por elas). Este envenenamento alastra-se muito mais do que se pensa: encontrei o instinto de arrogância, próprio dos teólogos, por toda a parte onde, hoje em dia, alguém se sente «idealista » – por toda a parte onde alguém, em virtude de uma mais elevada origem, se arroga o direito de olhar para a realidade com superioridade e distância... O idealista, tal como o sacerdote, tem na mão todos os grandes conceitos (e não só na mão!), e atira-os com um benévolo desprezo contra o «entendimento», os «sentidos», as «honras», a «ciência »; vê tais coisas abaixo de si como forças perniciosas e sedutoras, sobre as quais paira o «espírito» no puro ser-para-si como se a humildade, a castidade, a pobreza, em suma, a santidade, não tivessem até hoje causado infinitamente mais dano à vida do que quaisquer horrores e vícios... O puro espírito é a pura mentira... Enquanto o sacerdote surgir como um tipo superior de homem, esse negador, caluniador e envenenador da vida por profissão, não haverá resposta para a pergunta: o que é a verdade? Virou-se já a verdade de cabeça para baixo, quando o advogado consciente do nada e da negação se considera como o representante da «verdade».

Contra este instinto teológico faço eu a guerra: por toda a parte encontrei seus vestígios! Quem no seu corpo tem sangue de teólogo situa-se desde logo, perante todas as coisas, numa posição distorcida e insincera. O pathos que dele emana chama-se fé: fechar os olhos perante si mesmo, de uma vez por todas, para não sofrer com o aspecto de uma falsidade incurável. Desta óptica falseada acerca de todas as coisas fabrica-se intimamente uma moral, uma virtude, uma santidade, liga-se a boa consciência a uma falsa visão – e após esta se ter tornado sacrossanta, sob os nomes de «Deus», de «salvação» e de «eternidade», exige-se que nenhuma outra óptica possa ter valor. Desenterrei ainda por toda a parte o instinto teológico: é a forma mais divulgada, a forma verdadeiramente subterrânea de falsidade, que existe na Terra. O que um teólogo experimenta como verdadeiro deve ser falso: eis quase um critério de verdade. É o mais baixo instinto de autoconservação que proíbe que, em qualquer ponto, a realidade seja honrada e se lhe conceda apenas a palavra. Onde chegar a influência teológica, o juízo de valor é posto de cabeça para baixo e forçosamente se invertem os conceitos «verdadeiro» e «falso»: «verdadeiro» será, neste caso, o que é mais pernicioso à vida; «falso» será tudo quanto aí leva, intensifica, afirma, justifica e faz triunfar... Se acontecer que os teólogos, através da «consciência» dos príncipes (ou dos povos), estendam as mãos para o poder, não duvidemos do que, no fundo, sempre acontece: a vontade do fim, a vontade niilista, aspira ao poder...

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Para quem desejar, o livro todo pode ser lido clicando aqui: O AntiCristo.




Introdução à Ética


Lawrence Kohlberg (1927 -1987) foi um americano que se dedicou ao estudo da teoria piagetiana, centrando suas preocupações nas questões morais. Expandiu as experiências aplicando rico material em grupos de controle nos Estados Unidos, Turquia, Israel, analisando essas pessoas por vários anos. Por exemplo, em Chicago acompanhou um grupo de 75 meninos e rapazes que inicialmente tinham de dez a dezesseis anos, por quinze anos, com entrevistas a cada três anos.

Uma das diferenças do trabalho de Kohlherg em relação ao seu mestre está em que ele rejeita a teoria do paralelismo entre a psicogênese do pensamento lógico e a psicogênese da moralidade. Se o desenvolvimento do pensamento lógico formal é condição necessária para a vida moral plena, não é, entretanto, condição suficiente.

E suas observações comprovam que a maturidade moral geralmente só é atingida (quando é...) apenas pelo adulto, uns dez anos depois da adolescência. E que o nível mais alto de moralidade exige estruturas lógicas novas e mais complexas do que aquelas do pensamento formal.

Kohlberg reformula então a teoria dos estágios morais, distinguindo três grandes níveis de moralidade: o pré-convencional, o convencional e o pós-convencional.

No nível pré-convencional as regras morais derivam daqueles que as formulam, e sua aceitação se baseia no reconhecimento da autoridade, orientando-se o comportamento a partir dos critérios de obediência e de punição e recompensa.

1. Orientação "punição obediência"
(Como eu posso evitar a punição?)
2. Orientação auto-interesse (ou "hedonismo instrumental")
(O que eu ganho com isso?)


No nível convencional é superada a fase anterior, valorizando-se o reconhecimento do
outro (grupo, família, nação): predominam as expectativas interpessoais e a identificação com as pessoas do grupo a que pertence.

3. Acordo interpessoal e conformidade
(Normas sociais)
(Orientação "bom moço"/"boa moça")
4. Orientação "manutenção da ordem social e da autoridade"
(Moralidade "Lei e Ordem")


No nível pós-convencional os comportamentos são regulados por princípios. Os valores
independem dos grupos ou das pessoas que os sustentam, porque são princípios universais de justiça: igualdade dos direitos humanos, respeito a dignidade dos seres humanos como pessoas individuais, reconhecimento deque as pessoas são fins em si e precisam ser tratadas como tal.

5. Orientação "Contrato Social"
6. Princípios éticos universais
(Consciência principiada)


O resultado das pesquisas empíricas de Kohlberg levou a constatação de que um percentual baixíssimo de cidadãos atingem tal nível de moralidade pós-convencional.
Isso nos faz refletir a respeito das condições sócio-econômicas que excluem uma população tão grande das escolas, bem como nos leva a considerar que na sociedade competitiva e individualista pode parecer utopia aspirar por valores como a justiça, baseados na reciprocidade e no compromisso pessoal.

Regra de ouro

O que é detestado por você, não o faça a seu próximo. Rabi Hillel, sábio judeu do período do segundo Templo de Jerusalém. 
O que você não quer que lhe façam, não o faça aos demais. Confúcio, pensador Chinês. 
Que ninguém faça aos outros aquilo que para ele seria repugnante. Mahabharata, texto sagrado hindu. 
Aquela natureza só é boa quando não faz ao outro aquilo que não é bom para ela própria. Zoroastro, profeta persa. 
Não atormentes o próximo com o que te aflige. Ensinamento budista
O que é odiável para ti, não o faças ao teu próximo: isto é todo a Torah; o resto é comentário. Talmud. 
Não te vingarás nem guardarás ira contra os filhos do teu povo; mas amarás o teu próximo, como a ti mesmo. Pentateuco, atribuído a Moisés. 
Nenhum de vocês é um fiel até que deseje ao seu semelhante aquilo que deseja para si mesmo. Ensinamento Islã. 

terça-feira, 5 de junho de 2012

A indução é o raciocínio que, após considerar um número suficiente de casos particulares, conclui uma verdade geral. A indução, ao contrário da dedução, parte da experiência sensível, dos dados particulares. Por exemplo:

  • O cobre é condutor de eletricidade,
    assim como a prata, o ouro, o ferro, o zinco e outros metais,
    Logo, todo metal é condutor de eletricidade.

    É importante que a enumeração de dados (que correspondem às experiências feitas) seja suficiente para permitir a passagem do particular para o geral. Entretanto, a indução também pressupõe a probabilidade, isto é, já que tantos se comportam de tal forma, é muito provável que todos se comportem assim.

    Em função desse "salto", há maior possibilidade de erro nos raciocínios indutivos, uma vez que basta encontrarmos uma exceção para invalidar a regra geral. Por outro lado, é esse mesmo "salto" em direção ao provável que torna possível a descoberta, a proposta de novos modos de compreender o mundo. Por isso, a indução é o tipo de raciocínio mais usado em ciências experimentais.

    O argumento de autoridade

    Outro tipo de raciocínio indutivo muito utilizado é aquele que se desenvolve a partir do argumento de autoridade. Um modo válido de apresentar uma evidência é utilizar o testemunho de uma pessoa, instituição ou obra para sustentar nossa conclusão. Nesse caso, a indução se justifica da seguinte forma: a pessoa citada já emitiu vários juízos válidos a respeito do tema em pauta. Por isso, podemos concluir que todos os seus juízos sobre o assunto são igualmente válidos.

    A autoridade invocada precisa ser idônea, isto é, estar informada sobre o assunto considerado, e seu pronunciamento deve estar baseado em evidências objetivas que possam ser comprovadas por outras pessoas competentes. Somente nesse caso, a autoridade é digna de confiança e seu testemunho é evidência para a conclusão. Assim, o argumento será indutivamente correto.

    Há, entretanto, muitos empregos incorretos desse tipo de argumento, dando lugar a falácias lógicas (contra a lógica formal) ou a falácias de falsa premissa (contra a lógica material).

    Pode-se citar erroneamente uma autoridade ou interpretá-la incorretamente. Por exemplo, quando a afirmação é retirada de seu contexto original e aplicada em outro. Ou quando a "autoridade" citada é popular, mas não tem competência para opinar sobre o assunto. Neste caso, o apelo utilizado é meramente emocional, uma vez que nenhuma evidência lógica é oferecida.

    Quando usamos livros, autores, enciclopédias ou especialistas para fundamentar nosso raciocínio, estamos invocando sua autoridade no assunto. Por isso, é tão importante citar nossas fontes em trabalhos escolares ou científicos: dar o nome completo do autor e citar o livro onde o lemos, para que o leitor possa conferir se a idéia citada não sofreu deturpação de nossa parte.

    Propaganda & marketing

    Transfere-se o prestígio da "autoridade" para a conclusão. Trata-se de um tipo de argumento incorreto freqüentemente usado em propaganda. O fato de um famoso pagodeiro beber uma determinada marca de cerveja não quer dizer que aquela marca seja melhor que as demais. Igualmente, o fato de uma top-model usar determinado produto de beleza não vai transformar toda mulher que usá-lo numa top-model.

    O raciocínio também pode ser falacioso quando a autoridade, reconhecida por sua contribuição em um determinado campo, opina sobre assuntos que não estão dentro de sua área de competência e, portanto, seu testemunho não é confiável. O fato de um grande compositor acreditar em um partido político, por exemplo, não faz desse partido o único digno de crédito.

    Portanto, é preciso tomar grande cuidado ao sustentar nossas conclusões com o argumento de autoridade, pois a confiabilidade de nossa indução dependerá, em grande parte, da idoneidade e da confiabilidade da autoridade utilizada.
  • Raciocinar ou argumentar é um ato característico da inteligência humana. Trata-se de um tipo de operação discursiva do pensamento que consiste em encadear premissas para deles extrair uma conclusão.

    Por premissa ou proposição entendemos a afirmação ou a negação da identidade de dois conceitos ou termos. Exemplo: Todo homem é mortal.

    O raciocínio chega de uma premissa a uma conclusão, passando por várias outras premissas intermediárias. Nesse sentido, podemos dizer que o raciocínio é um conhecimento mediato ou indireto, isto é, intermediado por vários outros. Assim, é o contrário da intuição, que é o conhecimento imediato.

    Raciocinamos ou argumentamos quando colocamos premissas que contenham evidências em uma ordem tal que necessariamente nos levam a uma conclusão.

    Raciocínio dedutivo

    Podemos raciocinar ou argumentar logicamente de três modos diferentes, fazendo uso da dedução, da indução ou da analogia. Vamos examinar aqui o primeiro tipo de raciocínio, que mereceu uma atenção toda especial dos lógicos, desde Aristóteles.

    A dedução é um tipo de raciocínio que parte de uma proposição geral (referente a todos os elementos de um conjunto) e conclui com uma proposição particular (referente a parte dos elementos de um conjunto), que se apresenta como necessária, ou seja, que deriva logicamente das premissas. Veja dois exemplos:

  • Todo metal é dilatado pelo calor. (Premissa maior)
    Ora, a prata é um metal. (Premissa menor)
    Logo, a prata é dilatada pelo calor. (Conclusão)
  • Todo brasileiro é sul-americano. (Premissa maior)
    Ora, todo paulista é brasileiro. (Premissa menor)
    Logo, todo paulista é sul-americano. (Conclusão)

    Aristóteles chamava o raciocínio dedutivo de silogismo e o considerava um modelo de rigor lógico. Entretanto, é importante notar que a dedução não traz conhecimento novo, uma vez que a conclusão sempre se apresenta como um caso particular da lei geral.

    Assim, a dedução organiza e especifica o conhecimento que já temos. Ela tem como ponto de partida o plano do inteligível, ou seja, da verdade geral, já estabelecida.
  • A noção de argumento é fundamental para a lógica. Argumento é um conjunto de enunciados que estão relacionados uns com os outros. Argumento é um raciocínio lógico.
    Observe o seguinte argumento:

    Todos os homens são mortais.
    Sócrates é homem.
    Logo, Sócrates é mortal.

    Este é um argumento formado por duas premissas e uma conclusão.

    Os dois primeiros enunciados são as premissas e o último enunciado é a conclusão. Os fatos apresentados nas premissas servem de evidência para a conclusão, isto é, são eles que sustentam a conclusão.

    Para que o argumento seja válido, não basta que a conclusão seja verdadeira. É preciso que as premissas e a conclusão estejam relacionadas corretamente. Distinguir os raciocínios corretos dos incorretos é a principal tarefa da lógica.

    Os argumentos sempre apresentam uma ou mais premissas e uma conclusão.

    Silogismo categórico é um argumento composto por três enunciados, sendo duas premissas e uma conclusão.

    Vejamos um exemplo:

    Todo molusco é invertebrado. premissa
    O caracol é um molusco. premissa
    Logo, o caracol é invertebrado. conclusão

    Observamos que este argumento tem a mesma forma lógica do primeiro argumento apresentado. Ambos são silogismos categóricos. Ambos são argumentos válidos. Todos os argumentos que apresentarem esta forma lógica serão argumentos válidos.

    Todo A é B.
    C é A.
    Logo, C é B.

    Proposições

    Tanto as premissas quanto a conclusão de uma argumento são proposições. Proposição é uma frase informativa cujo conteúdo pode ser verdadeiro ou falso. Proposições são enunciados simples compostos de quantificador, termo/sujeito, cópula e termo/predicado.

    Vamos observar:


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    Levando em conta que:
    termo/sujeito = homem
    termo/predicado = mortal

    Podemos representar esta proposição da seguinte maneira:

    Todo S é P.

    Vejamos esta outra proposição:

    Todo metal é condutor de eletricidade.

    Se observamos bem, vemos que esta última proposição pode ser representada da mesma maneira:

    Todo S é P.

    Concluímos que a lógica não se interessa particularmente pela hombridade de Sócrates ou pelas propriedades dos metais. Não é o conteúdo das proposições que interessa à lógica. A lógica tem grande interesse nos raciocínios e naquilo que torna alguns argumentos válidos e outros inválidos.

    Verdade e validade

    Já sabemos que argumento é a passagem de uma ou mais premissas a uma conclusão. Sabemos também que é preciso que a conclusão derive das premissas. Pois bem, quando a conclusão é uma conseqüência necessária das premissas, dizemos que o argumento é válido. Quando a conclusão não é uma conseqüência necessária das premissas, dizemos que o argumento é inválido.

    A validade de um argumento, portanto, depende se sua estrutura, depende da maneira como este argumento está organizado. Vejamos o argumento abaixo:

    Todos os ziriguiduns são tchutchucas.
    Pedrinho é um ziriguidum.
    Logo, Pedrinho é um tchutchuca.

    Este é um argumento válido. Isto quer dizer que, mesmo não sabendo o que significa ziriguidum ou tchutchuca, sabemos com certeza que, se as duas premissas forem verdadeiras, a conclusão também será verdadeira.
    O dilema do prisioneiro foi originalmente formulado por Merrill Flood e Melvin Dresher enquanto trabalhavam na RAND em 1950. Mais tarde, Albert W. Tucker fez a sua formalização com o tema da pena de prisão e deu ao problema geral esse nome específico. O dilema do prisioneiro (DP) dito clássico funciona da seguinte forma:


    Dois suspeitos, A e B, são presos pela polícia.

    A polícia tem provas insuficientes para os condenar, mas, separando os prisioneiros, oferece a ambos o mesmo acordo: se um dos prisioneiros, confessando, testemunhar contra o outro e esse outro permanecer em silêncio, o que confessou sai livre enquanto o cúmplice silencioso cumpre 10 anos de sentença.

    Se ambos ficarem em silêncio, a polícia só pode condená-los a 6 meses de cadeia cada um. Se ambos traírem o comparsa, cada um leva 5 anos de cadeia.

    Cada prisioneiro faz a sua decisão sem saber que decisão o outro vai tomar, e nenhum tem certeza da decisão do outro. A questão que o dilema propõe é: o que vai acontecer? Como o prisioneiro vai reagir?
    Problema de lógica.

    Vamos ler o seguinte texto e tentar perceber onde está o problema:


    Certa vez, em uma pequena cidade do interior do Brasil, um fato inusitado aconteceu. Era época de eleição, e um político discursava ferozmente em praça pública. Praticamente gritava ao microfone:

    - Os atos legítimos de um governo são aqueles que dizem respeito ao interesse de seus membros enquanto grupo! Ele deve interferir na vida das pessoas apenas se as ações por elas promovidas envolvam terceiros! Se a pessoa estiver agindo por si própria, e fazendo coisas que só atinjam a ela mesma, deve ter respeitado o seu direito de total liberdade! Devemos ser livres no que diz respeito a nós mesmos! Nenhum governo deve nos tirar esse direito!

    O político, então, foi muito aplaudido. Pessoas gritavam o seu nome, dizendo que estava certo, que era isso mesmo, que ele tinha razão! E ele então continuou:

    - No nosso governo, cada brasileiro terá uma poupança, para economizar, e ter assim garantida uma velhice segura. Cada um de nós depositará cada centavo não gasto em uma conta aberta automaticamente pelo governo. Uma velhice sadia para todos nós!

    Novamente muitas palmas. Novamente palavras de apoio e admiração.  

    domingo, 27 de maio de 2012

    As falácias lógicas

    Assim como comentei na aula passada, seguem alguns exemplos de falácias. Conversaremos melhor sobre isso nessa semana, juntamente com as outras questões a respeito da Lógica.

    Abraço!
      
    Falácias causais
    Os argumentos causais são os argumentos onde se conclui que uma coisa ou acontecimento causa outra. São muito comuns mas, como a relação entre causa e efeito é complexa, é fácil cometer erros. Em regra, diz-se que C é a causa do efeito E se e só se:

    1. Geralmente, quando C ocorre, também E ocorre; e
    2. Geralmente, se C não ocorre, então E também não ocorre.

    Diz-se "geralmente" porque há sempre excepções. Diz-se, por exemplo, que riscar o fósforo é a causa da chama porque:
    1. Geralmente, quando riscamos o fósforo ele acende (exceto quando riscamos o fósforo dentro de água...); e
    2. Geralmente, quando o fósforo não é riscado, ele não acende (exceto quando o acendemos com um maçarico...).

    Muitos especialistas requerem também que uma afirmação causal seja apoiada por uma lei da natureza. Por exemplo, a afirmação "riscar o fósforo é a causa da chama" é justificado pelo princípio "a fricção produz calor, e o calor produz o fogo".


    - Depois disso, por causa disso (post hoc ergo propter hoc)
    O nome em Latim significa: "depois disso, logo, por causa disso". Isto descreve a falácia. Um autor comete a falácia quando pressupõe que, por uma coisa se seguir a outra, então aquela teve de ser causada por esta.
    Exemplo:
    1. Tomei o EZ-Mata-Gripe e dois dias depois a minha constipação desapareceu... 
    Prova: Mostre que a correlação é coincidência, mostrando: 1) que o "efeito" teria ocorrido mesmo sem a alegada causa ocorrer, ou que 2) o efeito teve uma causa diferente da que foi indicada.

    Sobre essa falácia, convido vocês à leitura desse texto longo mas muito interessante: O físico e a pororoca
    http://movimento.medicina.responsavel.sites.uol.com.br/mmrpororoca.htm



    - Efeito conjunto
    Sustenta-se que uma coisa causa outra mas, de fato, são ambas o efeito de uma mesma causa subjacente. Esta falácia é muitas vezes apresentada como um caso especial de falácia post hoc ergo propter hoc.
    Exemplos:

    1. Estamos a viver uma fase de elevado desemprego que é provocado por um baixo consumo. (De fato, ambos podem ser causados por taxas de juro muito elevadas.)
    2. Estás com febre e isso está a fazer com que te enchas de borbulhas. (De fato, ambos os sintomas são causados pelo sarampo.) Prova: Identifique os dois efeitos e mostre que ambos são provocados pela mesma causa subjacente. É preciso indicar a causa oculta e provar que ela causa cada efeito.

    - Causa genuína, mas insignificante
    O objecto ou evento identificado como a causa de um efeito, é uma causa genuína — mas insignificante quando comparada com outras causas desse evento. Note-se que não se trata desta falácia quando todas as outras causas são igualmente insignificantes. Não é falacioso dizer que a sua ajuda causou a derrota do partido do governo, porque o seu voto tem o mesmo peso de qualquer outro voto e, portanto, é igualmente parte da causa.
    Exemplos:

    1. Fumar causa a poluição do ar em Edmonton. (É verdade mas o efeito do fumo do tabaco é insignificante comparado com o efeito poluente dos automóveis.)
    2. Deixando a tua fornalha acesa durante a noite contribuis para o aquecimento global do planeta.

    Prova: Identifique uma causa mais significativa.
    - Tomar o efeito pela causa
    A relação entre causa e efeito é invertida.
    Exemplos:
    1. O cancro faz fumar.
    2. A propagação da SIDA foi provocada pela educação sexual. (De facto, o desenvolvimento da educação sexual foi provocado pela propagação da SIDA.)
    Prova: Exponha um argumento causal, mostrando que a relação entre causa e efeito foi, de facto, invertida.

    - Causa complexa
    O efeito é provocado por um certo número de objectos ou eventos, dos quais a causa identificada é apenas um parte. Uma variante disto são os ciclos de feedback onde o efeito é ele mesmo parte da causa.
    Exemplos:
    1. O acidente não teria ocorrido se não fosse a má localização do arbusto. (Certo, mas o acidente não teria ocorrido se o condutor não estivesse bêbado, e se o peão tivesse prestado atenção ao trânsito.)
    2. A explosão do Challenger foi causada pelo tempo frio. (Verdadeiro, mas não teria ocorrido se os anéis em o tivessem sido bem construídos.)
    3. As pessoas estão com medo por causa do incremento do crime. (Certo, mas as pessoas têm sido levadas a violar a lei em consequência do seu medo. O que ainda aumenta mais o crime.)
    Prova: Mostre que todas as causas e não apenas aquela que foi mencionada são precisas para explicar o efeito.
    - Outros tipos de falácia

    - Argumentum ad antiquitatem (Argumento de antiguidade ou tradição):
    Basicamente consiste em afirmar que algo é verdadeiro ou bom só porque é antigo ou “sempre foi assim”.

    - Argumentum ad hominem (Ataque ao argumentador):
    Em vez de o argumentador provar a falsidade do enunciado, ele ataca a pessoa que fez o enunciado.
    Ex: "A afirmação de Joãozinho é falsa, pois ele é um sujeito mal-educado".

    - Argumentum ad ignorantiam (Argumento da Ignorância):
    Ocorre quando algo é considerado verdadeiro simplesmente porque não foi provado que é falso (ou provar que algo é falso por não haver provas de que seja verdade). Note que é diferente do princípio científico de se considerar falso até que seja provado que é verdadeiro.
    Ex: "Joãozinho diz a verdade, pois ninguém pode provar o contrário."
    "É certeza que Deus exista, até que se prove o contrário."

    - Non sequitur (Não segue):
    Tipo de falácia na qual a conclusão não segue das premissas.
    Ex: "É bom acabar com a pobreza neste país; É bom eliminar a corrupção neste país; Portanto, vamos votar no Joãozinho para presidente!"

    - Argumentum ad Baculum (Apelo à Força):
    Utilização de algum tipo de privilégio, força, poder ou ameaça para impor a conclusão.
    Ex: "Acredite em Deus, senão irá pro Inferno."

    - Argumentum ad Populum (Apelo ao Povo):
    É a tentativa de ganhar a causa por apelar a uma grande quantidade de pessoas.
    Ex: "Deus existe porque grande parte da população mundial acredita nele."

    - Argumentum ad Numerum (Apelo ao número): Semelhante ao "ad populum". Afirma que quanto mais pessoas acreditam em uma proposição, mais provável é a proposição de ser verdadeira.
    Ex: "Deus existe pois 85% das pessoas acreditam que sim. Não podem estar todos enganados."

    - Argumentum ad Verecundiam (Apelo à autoridade):
    Argumentação baseada no apelo a alguma autoridade reconhecida para comprovar a premissa .
    Ex: "Se Aristóteles disse isto, é verdade" ou "Se a Bíblia diz isto, isto necessariamente é a verdade".

    - Dicto Simpliciter (Regra geral):
    Ocorre quando uma regra geral é aplicada a um caso particular onde a regra não deveria ser aplicada.
    Ex: "A palavra 'Cafú' não tem acento porque é oxítona terminada em u" (nesse caso o nome é próprio e a regra geral não se aplica)

    quarta-feira, 16 de maio de 2012

    Diálogos de Platão

    Pessoal,
    encontrei essa página do portal Domínio Público na qual há vários diálogos de Platão.

    É só baixá-los em : http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/PesquisaObraForm.do?select_action=&co_autor=173


    segunda-feira, 14 de maio de 2012

    Cosmogonia e Mito


     Um pouco sobre as primeiras aulas na CENAPEC: 

    No século VII a.C as cosmogonias começaram a ser discutidas em praça pública. Agora, o que são cosmogonias? Vamos pensar assim: o termo é formado por duas palavras gregas. Uma delas é cosmos, que significa ordem, organização, harmonia; e a outra é gonia, que significa gênese. Juntando as duas coisas temos algo como um discurso a respeito de como as coisas começaram, se iniciaram. Um das características das cosmogonias é que dentro de si, nelas, em si mesmo, não há discussão. As cosmogonias são sistemas explicação do mundo sobre os quais não se dúvida, não se coloca dúvidas porque há muito de crença envolvido.

    Elas não são, portanto, críticas, assim como é a Filosofia. Forma-se então uma racionalidade, uma racionalidade pública. Logo a filosofia é filha da polis, é filha a cidade. Ela precisa de pessoas que façam o que estamos fazendo aqui nesse momento: acessando as idéias e, a partir delas, colocando problemas e

    Para termos uma idéia melhor sobre o que estamos falando, vejamos este trecho da Teogonia, um poema grego escrito por Hesíodo (século VII ou VIII a.C) que narra, através da mitologia, a origem dos deuses e do universo:

    Primeiro que tudo surgiu o Caos, e depois Gaia (Terra) de amplo peito, - ou seja, a Terra nasce do caos, e é bom que a gente entenda o que é esse caos. O caos é a desorganização a partir do qual as coisas podem se organizar. É uma confusão primordial mas na qual já está implicada a idéia de ordem - para sempre firme alicerce de todas as coisas, e o brumoso Tártaro (que é submundo, o mundo dos mortos) num recesso da terra de largos caminhos, e Eros (o deus do amor, da paixão e que a unir as coisas), o mais belo entre os deuses imortais, e que amolece os membros e, no peito de todos os deuses e de todos os homens, domina o espírito e a vontade ponderada. Do Caos nasceram Érebo e a negra Noite; e da Noite, por sua vez, surgiu o Éter e o Dia, que ela concebeu e deu à luz depois de sua ligação amorosa com Érebo. E a Terra gerou primeiro Urano (o céu) constelado, igual a ela própria, para a cobrir em toda a volta, e para ser eternamente a morada segura dos deuses bem-aventurados.

    Gaia teve com Urano, seu primeiro filho, outros filhos sendo estes 3 ciclopes, 50 hacatonquiros e 12 Titãs. Um desses titãs é Cronos (deus do tempo) que terminará por vencer o pai, Urano, passa a dominar, a reinar entre os deuses. Zeus, que todos conhecemos como senhor do Olimpo, é filho de Cronos com sua irmã Reia. Gaia havia profetizado que Cronos seria morto por um de seus filhos. Comeu todos, mas Reia o enganou a respeito de um, Zeus, que mais tarde libertou todos os seus irmãos (Poseidon, Hera, Hades, Héstia e Démeter) que os ajudou a matar o pai.

    O mito de Édipo

    A princípio, Laio não acreditou no oráculo e teve um filho com Jocasta. Quando a crian­ça nasceu, porém, arrependido e com medo da profecia, ordenou que o recém-nascido fosse abandonado numa montanha, com os tornoze­los furados, amarrados por uma corda. O edema provocado pela ferida é a origem do nome Édipo, que significa "pés inchados".
    Mas o menino Édipo não morreu. Alguns pastores o encontraram e o levaram ao rei de Corinto, Polibo, que o criou como se fosse seu filho legítimo. Já adulto, Édipo ficou sabendo que era filho adotivo. Surpreso, viajou em busca do oráculo de Delfos para conhecer o mistério de seu destino. O oráculo revelou que seu destino era matar o próprio pai e se casar com a própria mãe. Espantado com essa profecia, Édipo decidiu deixar Corinto e rumar em direção a Tebas. No decorrer da viagem encontrou-se com Laio. De forma arrogante o rei ordenou-lhe que dei­xasse o caminho livre para sua passagem. Édipo desobedeceu às ordens do desconhecido. Explo­diu, então, uma luta entre ambos, na qual Édiio matou Laio. Sem saber que tinha matado o próprio pai, Édipo prosseguiu sua viagem para Tebas. No caminho deparou-se com a Esfinge, um monstro me­tade leão, metade mulher, que lançava enigmas aos viajantes e devorava quem não os decifras­se. A Esfinge atormentava os moradores de Tebas. O enigma proposto pela Esfinge era o seguinte: "Qual o animal que de manhã tem quatro pés, dois ao meio-dia e três à tarde?" Édipo respondeu: "É o homem. Pois na manhã da vida (infância) engatinha com pés e mãos; ao meio-dia (na fase adulta) anda sobre dois pés; e à tar­de (velhice) necessita das duas pernas e do apoio de uma bengala". Furiosa por ver o enigma resolvido, a Esfinge se ma­tou. O povo tebano saudou Édipo como seu novo rei. Deram-lhe como esposa Jocasta, a viúva de Laio. Ignorando tudo, Édipo ca­sou-se com a própria mãe. Uma violenta peste abateu-se então sobre a cidade. Consultado, o oráculo respondeu que a peste não findaria até que o assassino de Laio fosse castigado. Ao longo das investigações para descobrir o criminoso, a verdade foi esclarecida. Incon­formado com o destino, Édipo cegou-se e Jocas­ta enforcou-se. Édipo deixou Tebas, partindo para um exílio na cidade de Colona.

    Mito de Pandora
    Prometeu, deus cujo nome significa em grego “aquele que vê o futuro”, doou ao homem o fogo e as técnicas para acendê-lo e mantê-lo. Zeus, o soberano dos deuses se enfureceu com esse ato, porque o segredo do fogo deveria ser mantido entre os deuses. Por isso, ordenou a Hefesto, deus do fogo e das habilidades técnicas, que criasse uma mulher que fosse perfeita, e que a apresentasse à assembléia dos deuses. Atena, a deusa da sabedoria e da guerra, vestiu essa mulher com uma roupa branquíssima e adornou-lhe a cabeça com uma guirlanda de flores montada sobre uma coroa de ouro. Hefesto a conduziu pessoalmente aos deuses, e todos ficaram admirados; cada um lhe deu um dom particular. Atena lhe ensinou as artes que convém ao seu sexo, como a arte de tecer. Afrodite lhe deu o encanto, que despertaria o desejo dos homens. As Cárites, deusas da beleza, e a deusa da persuasão ornaram seu pescoço com colares de ouro. Hermes, o mensageiro dos deuses, lhe concedeu a capacidade de falar, juntamente com a arte de seduzir os corações por meio de discursos insinuantes. Depois que todos os deuses lhe deram seus presentes, ela recebeu o nome de Pandora, que em grego quer dizer "todos os dons".
    Finalmente, Zeus lhe entregou uma caixa bem fechada, e ordenou a ela que a levasse como presente a Prometeu. Entretanto, ele não quis receber nem Pandora, nem a caixa, e recomendou a seu irmão, Epimeteu, que também não aceitasse nada vindo de Zeus. Epimeteu, cujo nome significa "aquele que reflete tarde demais", ficou encantado com a beleza de Pandora e a tomou como esposa.
    A caixa de Pandora foi então aberta e de lá escaparam a Senilidade, a Insanidade, a Doença, a Inveja, a Paixão, o Vício, a Praga, a Fome e todos os outros males, que se espalharam pelo mundo e tornaram miserável a existência dos homens a partir de então. Epimeteu tentou fechá-la, mas só restou dentro a Esperança, uma criatura alada que estava prestes a voar, mas que ficou aprisionada na caixa.
    Esse mito, como muitos outros, tem versões diferentes. Numa delas, por exemplo, a Esperança chega a escapar da caixa, e é graças a ela que os homens conseguem enfrentar todos os males e não desistem de viver. Além disso, nessa outra narrativa, o presente de Hermes não é a capacidade de seduzir, mas sim a falsidade. Fala-se, ainda, que não era uma caixa o que Pandora levava, mas um vaso. Essas va¬riações, aliás, mostram como os mitos sofriam modificações à medida que eram narrados.
    Na Grécia antiga, em suma, é importante ressaltar essa "familiaridade" das pessoas com os deuses. Os mitos formavam, para os gregos daquele tempo, um sistema complexo, que explicava praticamente todos os elementos de sua cultura. Eles estavam organizados num conjunto coerente, lógico, e constituíam uma maneira de ver o mundo, de explicá-lo e compreendê-lo.

    Como nós vimos neste texto, estas estórias não se utilizavam de lógica alguma para a explicação do mundo, sendo criações que misturavam nossa imaginação a alguns elementos da realidade, conhecimento e história de um povo.

    Isto significa que estamos em meio a algo que costumamos chamar de pensamento mítico.

    Uma pergunta que a gente se fazer, nesse momento, só pra deixar as coisas um pouco mais divertidas é: será que esse modo de pensar miticamente já nos abandonou, ou ainda muito do que fazemos e a forma como pensamos carrega muita coisa da estrutura da maneira mítica de pensar?

    Da pra gente fazer uma comparação entre a explicação do nascimento do mundo dos gregos com aquela que temos em nossas religiões? E a ciência mesmo?
    Entretanto, vimos que a forma como explicamos as coisas tem muito a ver com o mundo em que vivemos. Para aquele estado em que as coisas se encontravam (pouca tecnologia, poucas pessoas, pouca troca de informações), o pensamento mítico parecia ser suficiente, dando conta de explicar as coisas de um modo que nos parecia satisfatório.
    Acontece que, em certo momento da história, algo mudou. E essa mudança acabou mostrando aos homens que existiam outras formas de ver o mundo, o que vai tornar possível o nascimento da filosofia. Grande parte da mudança necessária para o nascimento da filosofia ocorreu por volta do século VII a.C., e teve início com o grande aumento do comércio que aconteceu nesta época, principalmente nas regiões do mundo dominadas pela Grécia.
    Esta informação, em um primeiro momento, poderia nos fazer pensar: "ora, mas como este acontecimento, ligado à história e à economia, pode ser considerado tão importante para o nosso assunto?" Ocorre que este aumento na venda e na troca de produtos terá como resultado:
    - maior riqueza, o que vai favorecer importantes progressos tecnológicos (na engenharia ou na astronomia, por exemplo);
    - um maior número de viagens, o que vai possibilitar o conhecimento de novas culturas;
    - uma maior circulação de pessoas nas cidades, com um crescimento no número de estrangeiros. Você pode imaginar o que isso causou?
    Se antes tínhamos pouco contato entre as pessoas, neste novo momento da história, indivíduos diferentes, de lugares diferentes, começaram a se encontrar mais, a conversar mais, e esta troca de informações foi decisiva para o nascimento da Filosofia.
    Algumas pessoas começaram a perceber que a maneira de explicar o mundo usando os mitos não fazia muito sentido. Podemos entender assim um dos motivos que fizeram com que elas pensassem desta maneira: eu explico as coisas por um mito e você, por outro. Ora, deve haver alguma coisa errada aí, não é mesmo? Uma explicação sobre como as coisas são e funcionam não deveria ser universal, ou seja, não deveria valer para todo mundo? É mais ou menos como a explicação sobre a chuva, que deve ser igual aqui ou no Japão. Não dá para ter uma aqui e uma diferente lá. Falaríamos de coisas distintas, não é? Percebendo isto, certos homens, incomodados com esta situação, tentaram encontrar um princípio que valesse para tudo, e que servisse para explicar todas as coisas.
    Estes foram os primeiros filósofos.
    E é então, neste momento, que nasce a filosofia: quando o pensamento mítico, que com os novos conhecimentos do homem sobre o mundo perde o seu valor, é substituído ou na verdade começa a ser substituído por um princípio que pode valer para todas coisas, em todos os lugares, podendo também ser utilizado para tentar explicar as novas descobertas daquele tempo.
    Foi assim, portanto, para suprir as necessidades deste novo mundo, que o homem fez a passagem do pensamento mítico para o chamado pensamento racional, guiado pela filosofia.