quarta-feira, 27 de junho de 2012

Moral em Kant


Moral em Kant
A máxima expressão do pensamento iluminista encontra-se em Immanuel Kant (1724-1804), que, além da Crítica da razão pura, escreveu a Critica da razão prática e a Fundamentação da metafísica dos costumes, nas quais apresenta sua teoria moral.
Enquanto na Critica da razão pura indaga sobre ''o que podemos conhecer", na Crítica da razão prática trata das possibilidades do ato moral ao perguntar sobre "o que podemos fazer". Ora, enquanto tudo na natureza age segundo leis, apenas o ser humano age segundo princípios, o que exige dele a capacidade de escolha: portanto, só ele tem uma vontade. E como para agir racionalmente precisa de princípios, a vontade é a razão prática, o instrumento para compreender o mundo dos costumes e orientar o indivíduo na sua ação.

O imperativo
Analisando os princípios da consciência moral, Kant usa o conceito de imperativo, que pode ser:
a) segundo um tempo verbal, uma ordem: "Faça!", "Retire-se!";
b) na linguagem comum, o que se impõe como um dever: "Respeitar as pessoas é um imperativo para mim;
c) para Kant, o imperativo é um mandamento da razão que serve para orientar a ação e se exprime pelo verbo dever. Distingue então dois tipos de imperativos:
• o imperativo hipotético ordena uma ação como meio de alcançar qualquer outra coisa que se queira; ou seja, a ação é boa porque me possibilita alcançar outra coisa além dela (por exemplo, um objeto, o prazer, o interesse, a felicidade).
• o imperativo categórico é o que visa a uma ação como necessária por si mesma, ou seja, a ação é boa em si, e não por ter como objetivo outra coisa; portanto, é assim chamado por ser incondicionado, absoluto, voltado para a realização da ação tendo em vista o dever.

Ao distinguir os imperativos hipotéticos dos imperativos categóricos, Kant conclui que a vontade humana é verdadeiramente moral apenas quando regida por estes últimos. Nesse sentido, rejeita as concepções éticas que predominavam até então, quer seja da filosofia grega, quer seja da cristã, que norteiam a ação moral a partir de condicionantes como a felicidade, o prazer ou o interesse. Para o sujeito racional a ação não deve ser movida por interesses com o objetivo de ser feliz ou evitar a dor, ou ainda para alcançar o céu ou não sofrer a punição divina.

Pelo imperativo categórico, o agir do ponto de vista moral funda-se exclusivamente na razão. Mais ainda, a lei moral que a razão descobre é universal, pois não se trata de descoberta subjetiva. Ela é necessária, pois toma por base a pessoa como ser racional e preserva a dignidade humana. Nas palavras do próprio Kant:
Age apenas segundo uma máxima tal que possas ao mesmo tempo querer que ela se torne lei universal.
 Exemplificando, suponhamos a norma moral "não roubar":
• para a concepção judaico-cristã, o fundamento da norma encontra-se no sétimo mandamento de Deus: "Não furtarás".
• para os teóricos jusnaturalistas, funda-se no direito natural, comum a todos os seres humanos;
• para os empiristas (como Locke e Condillac), a norma deriva do interesse próprio, pois o sujeito que a desobedece será submetido ao desprazer, à censura pública ou à prisão;

Para Kant, a norma enraíza-se na própria natureza da razão. Caso se aceite o roubo e consequentemente o enriquecimento ilícito, de modo a elevar-se essa máxima (pessoal) ao nível universal, haverá uma contradição: se todos podem roubar, não há como manter a posse do que foi furtado.

Autonomia e dignidade
A autonomia da razão para legislar supõe a liberdade e o dever. Todo imperativo impõe-se como dever, mas essa exigência não é heterônoma – exterior e cega - e sim livremente assumida pelo sujeito que se autodetermina. É essa a diferença que Kant percebe entre a sua ética e as anteriormente propostas, porque para ele o indivíduo só está sujeito à sua própria legislação, ainda que ele admita que essa lei por ele erigida deve ser universal.

A ideia de autonomia e de universalidade da lei moral leva a um outro conceito: o da dignidade humana, e, portanto, do ser humano como fim e não como meio para o que quer que seja. Para tanto, Kant distingue as coisas que têm preço e as que têm dignidade. As que têm preço podem ser trocadas por um valor equivalente, mas as que têm dignidade valem por si mesmas e estão acima de qualquer preço. Isso significa que a moralidade por excelência é a que respeita qualquer ser humano como fim em si mesmo e não meio para o que quer que seja. Portanto, apenas os seres humanos - e qualquer um deles - têm dignidade.
Assim diz Kant: Age de tal maneira que uses a humanidade, tanto na tua pessoa como na pessoa de qualquer outro, sempre e simultaneamente como fim e nunca simplesmente como meio.

Ao acentuar o caráter pessoal da liberdade, Kant elabora as categorias da moral iluminista racional e laica. No entanto, a moral kantiana é formalista porque fundada na razão universal, abstrata, o que mereceu a crítica dos filósofos posteriores. A partir do final do século XIX e ao longo do século XX, os filósofos orientam-se no sentido de descobrir o sujeito concreto da ação moral.
Agir por dever ou conforme o dever.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

O ANTICRISTO

O ANTICRISTO
Friedrich Nietzsche

PRÓLOGO
Este livro destina-se a muitíssimo poucos. Talvez nem sequer um deles viva ainda. Serão esses, porventura, os que compreendem o meu Zaratustra... Como poderia eu misturar-me com aqueles para quem hoje se aprontam já ouvidos? Só o depois-de-amanhã me pertence. Alguns nascem póstumos.

Conheço demasiado bem as condições em que alguém me compreende e, além disso, com necessidade me compreende. Há que ser íntegro até à dureza nas coisas de espírito para aguentar a minha seriedade e a minha paixão; estar afeito a viver nas montanhas, a ver abaixo de si o mesquinho charlatanismo actual da política e do egoísmo dos povos. Importa ter-se tornado indiferente, é preciso nunca perguntar se a verdade é útil, se chegará a ser uma fatalidade... Necessária é também uma preferência da força por questões a que hoje ninguém se atreve; a coragem para o proibido; a predestinação para o labirinto. Uma experiência de sete solidões. Ouvidos novos para uma nova música. Olhos novos para o mais longínquo. Uma consciência nova para verdades que, até hoje, permaneceram mudas. E uma vontade de economia de grande estilo: reter conjuntamente a sua força, o seu entusiasmo... O respeito por si mesmo, o amor-próprio, a liberdade incondicional para consigo...

Pois bem, só esses são os meus leitores, os meus autênticos leitores, os meus predestinados leitores: que importa o resto? O resto é simplesmente a Humanidade. Há que ser superior à humanidade em força, em grandeza de alma – e em desprezo...
FRIEDRICH NIETZSCHE

O ANTICRISTO
1
Olhemo-nos de frente. Somos hiperbóreos – sabemos assaz como vivemos à parte. «Nem por terra nem por mar encontrarás o caminho para os hiperbóreos» – como já de nós dizia Píndaro. Para além do norte, do gelo, da morte – a nossa vida, a nossa felicidade... Descobrimos a felicidade, sabemos o caminho, encontramos a saída de milénios inteiros de labirinto. Quem mais a encontrou? O homem moderno talvez?
«– Não sei sair nem entrar; sou tudo aquilo que não sabe nem sair nem entrar» – lamenta-se o homem moderno... E é dessa modernidade que adoecemos – da paz podre, do compromisso cobarde, de toda a virtuosa sujidade do moderno sim e não. Esta tolerância e largeur do coração, que tudo «perdoa» porque tudo «compreende», é para nós o vento siroco. Antes viver no gelo do que no meio das virtudes modernas e de outros ventos do sul!... Fomos bastante ousados, não poupámos os outros nem a nós mesmos; mas, por longo tempo, não soubemos onde ir com a nossa bravura; tornámo-nos sombrios, chamaram-nos fatalistas.
O nosso fatum – era a plenitude, a tensão, a acumulação das forças. Tínhamos sede de relâmpagos e de actos, mantínhamo-nos o mais longe possível da felicidade dos fracos, da «resignação»... Pairava a tempestade na nossa atmosfera, a natureza, que nós somos, obscurecia-se – pois não tínhamos senda alguma. Eis a fórmula da nossa felicidade: um sim, um não, uma linha recta, uma finalidade...

2
O que é bom? – Tudo o que aumenta no homem o sentimento do poder, a vontade de poder, o próprio poder.
O que é mau? – Tudo o que nasce da fraqueza. O que é a felicidade? – O sentimento de que o poder cresce, de que uma resistência foi vencida. Não o contentamento, mas mais poder. Não a paz finalmente, mas a guerra; não a virtude, mas a excelência (virtude no estilo do Renascimento, virtù, virtude isenta de moralismos). Os fracos e os falhados devem perecer: primeiro princípio da nossa caridade. E há mesmo que ajudá-los a desaparecer! O que é mais nocivo do que todos os vícios? – A compaixão da acção por todos os falhados e fracos: o Cristianismo...

3
O problema que aqui apresento não é qual o lugar que a humanidade deve ocupar na sequência dos seres (o homem é um fim), mas que tipo de homem se deve criar, se deve pretender, como o de mais alto valor,
mais digno de viver, mais seguro do futuro. Este tipo de elevado valor já existiu bastantes vezes; mas como um feliz acaso, como uma excepção, nunca como um tipo desejado. Pelo contrário, foi precisamente ele o mais temido até ao presente, quase a própria realidade temível em si – e a partir desse temor o tipo inverso
foi desejado, criado, conseguido; o animal doméstico, a rês gregária, o doente animal humano – o cristão...

4
Ao contrário do que hoje se crê, a humanidade não representa uma evolução para algo de melhor, de mais forte ou de mais elevado. O «progresso» é simplesmente uma ideia moderna, ou seja, uma ideia falsa. O europeu de hoje vale bem menos do que o europeu do Renascimento; desenvolvimento contínuo não é forçosamente elevar-se, aperfeiçoar-se, fortalecer-se.

Por outro lado, ocorrem constantemente casos singulares nas mais diversas regiões da Terra e a partir das mais diferentes culturas, nos quais se manifesta efectivamente um tipo superior: Tipo que, em relação ao conjunto da humanidade, constitui uma espécie de ultra-homem. Tais golpes de sorte da grande ocorrência foram e serão, talvez, sempre possíveis. E até mesmo linhagens inteiras, tribos, povos, podem em certas circunstâncias representar um tal acertar no alvo.

5
Não há que embelezar nem que ornamentar o Cristianismo: ele travou uma guerra de morte contra o tipo de homem superior, baniu todos os instintos fundamentais de tal tipo, e desses instintos destilou o mal, o
pernicioso – o homem forte como o tipicamente abominável, o homem «proscrito». O Cristianismo tomou o partido de tudo o que é fraco, baixo, falhado, fez da oposição aos instintos de conservação da vida forte um ideal; e até corrompeu a razão nas naturezas intelectualmente mais fortes, ao ensinar a ter os valores superiores da intelectualidade como pecaminosos, como desorientadores, como tentações. O mais lamentável exemplo: a corrupção de Pascal, que acreditava na corrupção da sua razão em virtude do pecado original; ela estava corrompida, é certo, mas apenas pelo seu Cristianismo!

6
Diante de mim surgiu um espectáculo doloroso e aterrador: tirei a cortina da corrupção do homem. Pelo menos na minha boca, esta palavra subtrai-se à suspeita de conter uma acusação moral contra o homem.
Entendo-a – quero sublinhá-lo uma vez mais – isenta de moralismos: A tal ponto que percepciono sobretudo esta corrupção justamente como, até agora, de um modo mais consciente se aspirou à «virtude», à «divindade». Entendo a corrupção, como já se está a adivinhar, no sentido de décadence; a minha afirmação é que todos os valores em que agora a humanidade condensa os seus desejos supremos são valeurs de décadence.

Tenho por corrupto um animal, uma espécie, um indivíduo, quando perde os seus instintos, quando escolhe e prefere o que lhe é prejudicial. Uma história dos «sentimentos sublimes», dos «ideais da humanidade» – e é possível que eu tenha de a contar – seria quase explicar porque é que o homem está tão corrompido. Mas a própria vida é para mim o instinto de crescimento, de duração, de acumulação das forças, o instinto do poder; onde falta a vontade de poder, há degenerescência. A minha afirmação é que esta vontade falta em todos os valores supremos da humanidade que, sob os mais sagrados nomes, dominam os valores da decadência, os valores niilistas.

7
Chamam ao Cristianismo a religião da compaixão. A compaixão está em contradição com as emoções tónicas, que elevam a energia do sentimento vital; a compaixão tem uma acção depressiva. Quando alguém se compadece, perde a força. Pela compaixão aumenta-se e multiplica-se o desperdício de energia que o sofrimento, por si próprio, já traz à vida. O próprio sentimento torna-se, pela compaixão, infeccioso; em determinadas circunstâncias pode chegar-se a um desperdício global de vida e de energia vital, que se encontra numa relação absurda com o quantum da causa (o caso da morte do Nazareno). Eis o primeiro ponto de vista; mas existe outro ainda mais importante. Supondo que se mede a compaixão pelo valor das reacções que costuma suscitar, surge ainda mais claramente o seu carácter nocivo à vida. A traços largos, a compaixão contradiz a lei da evolução, que é a lei da selecção. Conserva o que está maduro para o declínio, luta em prol dos deserdados e dos condenados pela vida; e, pela abundância dos falhados de toda a espécie, que mantém vivos, confere à própria vida um aspecto lúgubre e duvidoso. Ousou-se mesmo chamar virtude à compaixão (em qualquer moral nobre surge como fraqueza); foi-se mais longe, fez-se dela a virtude, o solo e a origem de todas as virtudes – só que, e é necessário não o esquecer, a partir do ponto de vista de uma filosofia que era niilista, que inscrevia como divisa no seu escudo a negação da vida.

Schopenhauer tinha razão ao dizer: «A vida é negada pela compaixão, a compaixão torna a vida ainda mais digna de ser negada » – compadecer-se é a prática do niilismo. Uma vez mais: este instinto depressivo e contagioso contradiz os instintos de conservação e de valorização da vida: como multiplicador da miséria, mais ainda como conservador de todos os míseros, é um instrumento essencial na acentuação da décadence; a compaixão incita ao nada!... Não se diz «nada»: menciona-se em seu lugar «o além», ou «Deus», ou «a verdadeira vida»; ou ainda Nirvana, redenção, beatitude... Esta inocente retórica, proveniente do domínio da idiossincrasia religiosa e moral, revela-se logo muito menos inocente quando se elucida qual a tendência que ali se abriga, sob o manto de sublimes palavras: a tendência hostil à vida. Schopenhauer era inimigo da vida; por isso, a piedade transformou-se para ele numa virtude... Aristóteles, como se sabe, via
a compaixão num estado mórbido e perigoso, que seria útil extirpar de quando em quando por meio de um purgante: para ele, o purgante era a tragédia. Em nome do instinto vital, deveria efectivamente arranjar-se
um meio de enfraquecer essa acumulação de piedade, tão mórbida e nociva, como se nos depara no caso de Schopenhauer (e, infelizmente, também no de toda a nossa décadence literária e artística, desde S. Petersburgo a Paris, de Tolstoi a Wagner): que rebente... Nada de mais insalubre, no meio da nossa insalubre modernidade, do que a nossa compaixão cristã. É aí que importa ser médico, é aí que é preciso ser implacável e manejar o escalpelo – eis o que nos incumbe, eis a a nossa filantropia, eis o que nos faz filósofos, a nós, hiperbóreos!

8
É necessário referir quem olhamos como a nossa antítese: é preciso ter visto de perto a fatalidade, melhor ainda, é preciso tê-la vivido, é preciso ter nela quase perecido, para aqui já nada apreender de cómico
(o livre pensamento dos nossos senhores investigadores da natureza e fisiólogos é, a meus olhos, um gracejo; falta-lhes a paixão nestas coisas, falta-lhes sofrer por elas). Este envenenamento alastra-se muito mais do que se pensa: encontrei o instinto de arrogância, próprio dos teólogos, por toda a parte onde, hoje em dia, alguém se sente «idealista » – por toda a parte onde alguém, em virtude de uma mais elevada origem, se arroga o direito de olhar para a realidade com superioridade e distância... O idealista, tal como o sacerdote, tem na mão todos os grandes conceitos (e não só na mão!), e atira-os com um benévolo desprezo contra o «entendimento», os «sentidos», as «honras», a «ciência »; vê tais coisas abaixo de si como forças perniciosas e sedutoras, sobre as quais paira o «espírito» no puro ser-para-si como se a humildade, a castidade, a pobreza, em suma, a santidade, não tivessem até hoje causado infinitamente mais dano à vida do que quaisquer horrores e vícios... O puro espírito é a pura mentira... Enquanto o sacerdote surgir como um tipo superior de homem, esse negador, caluniador e envenenador da vida por profissão, não haverá resposta para a pergunta: o que é a verdade? Virou-se já a verdade de cabeça para baixo, quando o advogado consciente do nada e da negação se considera como o representante da «verdade».

Contra este instinto teológico faço eu a guerra: por toda a parte encontrei seus vestígios! Quem no seu corpo tem sangue de teólogo situa-se desde logo, perante todas as coisas, numa posição distorcida e insincera. O pathos que dele emana chama-se fé: fechar os olhos perante si mesmo, de uma vez por todas, para não sofrer com o aspecto de uma falsidade incurável. Desta óptica falseada acerca de todas as coisas fabrica-se intimamente uma moral, uma virtude, uma santidade, liga-se a boa consciência a uma falsa visão – e após esta se ter tornado sacrossanta, sob os nomes de «Deus», de «salvação» e de «eternidade», exige-se que nenhuma outra óptica possa ter valor. Desenterrei ainda por toda a parte o instinto teológico: é a forma mais divulgada, a forma verdadeiramente subterrânea de falsidade, que existe na Terra. O que um teólogo experimenta como verdadeiro deve ser falso: eis quase um critério de verdade. É o mais baixo instinto de autoconservação que proíbe que, em qualquer ponto, a realidade seja honrada e se lhe conceda apenas a palavra. Onde chegar a influência teológica, o juízo de valor é posto de cabeça para baixo e forçosamente se invertem os conceitos «verdadeiro» e «falso»: «verdadeiro» será, neste caso, o que é mais pernicioso à vida; «falso» será tudo quanto aí leva, intensifica, afirma, justifica e faz triunfar... Se acontecer que os teólogos, através da «consciência» dos príncipes (ou dos povos), estendam as mãos para o poder, não duvidemos do que, no fundo, sempre acontece: a vontade do fim, a vontade niilista, aspira ao poder...

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Para quem desejar, o livro todo pode ser lido clicando aqui: O AntiCristo.




Introdução à Ética


Lawrence Kohlberg (1927 -1987) foi um americano que se dedicou ao estudo da teoria piagetiana, centrando suas preocupações nas questões morais. Expandiu as experiências aplicando rico material em grupos de controle nos Estados Unidos, Turquia, Israel, analisando essas pessoas por vários anos. Por exemplo, em Chicago acompanhou um grupo de 75 meninos e rapazes que inicialmente tinham de dez a dezesseis anos, por quinze anos, com entrevistas a cada três anos.

Uma das diferenças do trabalho de Kohlherg em relação ao seu mestre está em que ele rejeita a teoria do paralelismo entre a psicogênese do pensamento lógico e a psicogênese da moralidade. Se o desenvolvimento do pensamento lógico formal é condição necessária para a vida moral plena, não é, entretanto, condição suficiente.

E suas observações comprovam que a maturidade moral geralmente só é atingida (quando é...) apenas pelo adulto, uns dez anos depois da adolescência. E que o nível mais alto de moralidade exige estruturas lógicas novas e mais complexas do que aquelas do pensamento formal.

Kohlberg reformula então a teoria dos estágios morais, distinguindo três grandes níveis de moralidade: o pré-convencional, o convencional e o pós-convencional.

No nível pré-convencional as regras morais derivam daqueles que as formulam, e sua aceitação se baseia no reconhecimento da autoridade, orientando-se o comportamento a partir dos critérios de obediência e de punição e recompensa.

1. Orientação "punição obediência"
(Como eu posso evitar a punição?)
2. Orientação auto-interesse (ou "hedonismo instrumental")
(O que eu ganho com isso?)


No nível convencional é superada a fase anterior, valorizando-se o reconhecimento do
outro (grupo, família, nação): predominam as expectativas interpessoais e a identificação com as pessoas do grupo a que pertence.

3. Acordo interpessoal e conformidade
(Normas sociais)
(Orientação "bom moço"/"boa moça")
4. Orientação "manutenção da ordem social e da autoridade"
(Moralidade "Lei e Ordem")


No nível pós-convencional os comportamentos são regulados por princípios. Os valores
independem dos grupos ou das pessoas que os sustentam, porque são princípios universais de justiça: igualdade dos direitos humanos, respeito a dignidade dos seres humanos como pessoas individuais, reconhecimento deque as pessoas são fins em si e precisam ser tratadas como tal.

5. Orientação "Contrato Social"
6. Princípios éticos universais
(Consciência principiada)


O resultado das pesquisas empíricas de Kohlberg levou a constatação de que um percentual baixíssimo de cidadãos atingem tal nível de moralidade pós-convencional.
Isso nos faz refletir a respeito das condições sócio-econômicas que excluem uma população tão grande das escolas, bem como nos leva a considerar que na sociedade competitiva e individualista pode parecer utopia aspirar por valores como a justiça, baseados na reciprocidade e no compromisso pessoal.

Regra de ouro

O que é detestado por você, não o faça a seu próximo. Rabi Hillel, sábio judeu do período do segundo Templo de Jerusalém. 
O que você não quer que lhe façam, não o faça aos demais. Confúcio, pensador Chinês. 
Que ninguém faça aos outros aquilo que para ele seria repugnante. Mahabharata, texto sagrado hindu. 
Aquela natureza só é boa quando não faz ao outro aquilo que não é bom para ela própria. Zoroastro, profeta persa. 
Não atormentes o próximo com o que te aflige. Ensinamento budista
O que é odiável para ti, não o faças ao teu próximo: isto é todo a Torah; o resto é comentário. Talmud. 
Não te vingarás nem guardarás ira contra os filhos do teu povo; mas amarás o teu próximo, como a ti mesmo. Pentateuco, atribuído a Moisés. 
Nenhum de vocês é um fiel até que deseje ao seu semelhante aquilo que deseja para si mesmo. Ensinamento Islã. 

terça-feira, 5 de junho de 2012

A indução é o raciocínio que, após considerar um número suficiente de casos particulares, conclui uma verdade geral. A indução, ao contrário da dedução, parte da experiência sensível, dos dados particulares. Por exemplo:

  • O cobre é condutor de eletricidade,
    assim como a prata, o ouro, o ferro, o zinco e outros metais,
    Logo, todo metal é condutor de eletricidade.

    É importante que a enumeração de dados (que correspondem às experiências feitas) seja suficiente para permitir a passagem do particular para o geral. Entretanto, a indução também pressupõe a probabilidade, isto é, já que tantos se comportam de tal forma, é muito provável que todos se comportem assim.

    Em função desse "salto", há maior possibilidade de erro nos raciocínios indutivos, uma vez que basta encontrarmos uma exceção para invalidar a regra geral. Por outro lado, é esse mesmo "salto" em direção ao provável que torna possível a descoberta, a proposta de novos modos de compreender o mundo. Por isso, a indução é o tipo de raciocínio mais usado em ciências experimentais.

    O argumento de autoridade

    Outro tipo de raciocínio indutivo muito utilizado é aquele que se desenvolve a partir do argumento de autoridade. Um modo válido de apresentar uma evidência é utilizar o testemunho de uma pessoa, instituição ou obra para sustentar nossa conclusão. Nesse caso, a indução se justifica da seguinte forma: a pessoa citada já emitiu vários juízos válidos a respeito do tema em pauta. Por isso, podemos concluir que todos os seus juízos sobre o assunto são igualmente válidos.

    A autoridade invocada precisa ser idônea, isto é, estar informada sobre o assunto considerado, e seu pronunciamento deve estar baseado em evidências objetivas que possam ser comprovadas por outras pessoas competentes. Somente nesse caso, a autoridade é digna de confiança e seu testemunho é evidência para a conclusão. Assim, o argumento será indutivamente correto.

    Há, entretanto, muitos empregos incorretos desse tipo de argumento, dando lugar a falácias lógicas (contra a lógica formal) ou a falácias de falsa premissa (contra a lógica material).

    Pode-se citar erroneamente uma autoridade ou interpretá-la incorretamente. Por exemplo, quando a afirmação é retirada de seu contexto original e aplicada em outro. Ou quando a "autoridade" citada é popular, mas não tem competência para opinar sobre o assunto. Neste caso, o apelo utilizado é meramente emocional, uma vez que nenhuma evidência lógica é oferecida.

    Quando usamos livros, autores, enciclopédias ou especialistas para fundamentar nosso raciocínio, estamos invocando sua autoridade no assunto. Por isso, é tão importante citar nossas fontes em trabalhos escolares ou científicos: dar o nome completo do autor e citar o livro onde o lemos, para que o leitor possa conferir se a idéia citada não sofreu deturpação de nossa parte.

    Propaganda & marketing

    Transfere-se o prestígio da "autoridade" para a conclusão. Trata-se de um tipo de argumento incorreto freqüentemente usado em propaganda. O fato de um famoso pagodeiro beber uma determinada marca de cerveja não quer dizer que aquela marca seja melhor que as demais. Igualmente, o fato de uma top-model usar determinado produto de beleza não vai transformar toda mulher que usá-lo numa top-model.

    O raciocínio também pode ser falacioso quando a autoridade, reconhecida por sua contribuição em um determinado campo, opina sobre assuntos que não estão dentro de sua área de competência e, portanto, seu testemunho não é confiável. O fato de um grande compositor acreditar em um partido político, por exemplo, não faz desse partido o único digno de crédito.

    Portanto, é preciso tomar grande cuidado ao sustentar nossas conclusões com o argumento de autoridade, pois a confiabilidade de nossa indução dependerá, em grande parte, da idoneidade e da confiabilidade da autoridade utilizada.
  • Raciocinar ou argumentar é um ato característico da inteligência humana. Trata-se de um tipo de operação discursiva do pensamento que consiste em encadear premissas para deles extrair uma conclusão.

    Por premissa ou proposição entendemos a afirmação ou a negação da identidade de dois conceitos ou termos. Exemplo: Todo homem é mortal.

    O raciocínio chega de uma premissa a uma conclusão, passando por várias outras premissas intermediárias. Nesse sentido, podemos dizer que o raciocínio é um conhecimento mediato ou indireto, isto é, intermediado por vários outros. Assim, é o contrário da intuição, que é o conhecimento imediato.

    Raciocinamos ou argumentamos quando colocamos premissas que contenham evidências em uma ordem tal que necessariamente nos levam a uma conclusão.

    Raciocínio dedutivo

    Podemos raciocinar ou argumentar logicamente de três modos diferentes, fazendo uso da dedução, da indução ou da analogia. Vamos examinar aqui o primeiro tipo de raciocínio, que mereceu uma atenção toda especial dos lógicos, desde Aristóteles.

    A dedução é um tipo de raciocínio que parte de uma proposição geral (referente a todos os elementos de um conjunto) e conclui com uma proposição particular (referente a parte dos elementos de um conjunto), que se apresenta como necessária, ou seja, que deriva logicamente das premissas. Veja dois exemplos:

  • Todo metal é dilatado pelo calor. (Premissa maior)
    Ora, a prata é um metal. (Premissa menor)
    Logo, a prata é dilatada pelo calor. (Conclusão)
  • Todo brasileiro é sul-americano. (Premissa maior)
    Ora, todo paulista é brasileiro. (Premissa menor)
    Logo, todo paulista é sul-americano. (Conclusão)

    Aristóteles chamava o raciocínio dedutivo de silogismo e o considerava um modelo de rigor lógico. Entretanto, é importante notar que a dedução não traz conhecimento novo, uma vez que a conclusão sempre se apresenta como um caso particular da lei geral.

    Assim, a dedução organiza e especifica o conhecimento que já temos. Ela tem como ponto de partida o plano do inteligível, ou seja, da verdade geral, já estabelecida.
  • A noção de argumento é fundamental para a lógica. Argumento é um conjunto de enunciados que estão relacionados uns com os outros. Argumento é um raciocínio lógico.
    Observe o seguinte argumento:

    Todos os homens são mortais.
    Sócrates é homem.
    Logo, Sócrates é mortal.

    Este é um argumento formado por duas premissas e uma conclusão.

    Os dois primeiros enunciados são as premissas e o último enunciado é a conclusão. Os fatos apresentados nas premissas servem de evidência para a conclusão, isto é, são eles que sustentam a conclusão.

    Para que o argumento seja válido, não basta que a conclusão seja verdadeira. É preciso que as premissas e a conclusão estejam relacionadas corretamente. Distinguir os raciocínios corretos dos incorretos é a principal tarefa da lógica.

    Os argumentos sempre apresentam uma ou mais premissas e uma conclusão.

    Silogismo categórico é um argumento composto por três enunciados, sendo duas premissas e uma conclusão.

    Vejamos um exemplo:

    Todo molusco é invertebrado. premissa
    O caracol é um molusco. premissa
    Logo, o caracol é invertebrado. conclusão

    Observamos que este argumento tem a mesma forma lógica do primeiro argumento apresentado. Ambos são silogismos categóricos. Ambos são argumentos válidos. Todos os argumentos que apresentarem esta forma lógica serão argumentos válidos.

    Todo A é B.
    C é A.
    Logo, C é B.

    Proposições

    Tanto as premissas quanto a conclusão de uma argumento são proposições. Proposição é uma frase informativa cujo conteúdo pode ser verdadeiro ou falso. Proposições são enunciados simples compostos de quantificador, termo/sujeito, cópula e termo/predicado.

    Vamos observar:


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    Levando em conta que:
    termo/sujeito = homem
    termo/predicado = mortal

    Podemos representar esta proposição da seguinte maneira:

    Todo S é P.

    Vejamos esta outra proposição:

    Todo metal é condutor de eletricidade.

    Se observamos bem, vemos que esta última proposição pode ser representada da mesma maneira:

    Todo S é P.

    Concluímos que a lógica não se interessa particularmente pela hombridade de Sócrates ou pelas propriedades dos metais. Não é o conteúdo das proposições que interessa à lógica. A lógica tem grande interesse nos raciocínios e naquilo que torna alguns argumentos válidos e outros inválidos.

    Verdade e validade

    Já sabemos que argumento é a passagem de uma ou mais premissas a uma conclusão. Sabemos também que é preciso que a conclusão derive das premissas. Pois bem, quando a conclusão é uma conseqüência necessária das premissas, dizemos que o argumento é válido. Quando a conclusão não é uma conseqüência necessária das premissas, dizemos que o argumento é inválido.

    A validade de um argumento, portanto, depende se sua estrutura, depende da maneira como este argumento está organizado. Vejamos o argumento abaixo:

    Todos os ziriguiduns são tchutchucas.
    Pedrinho é um ziriguidum.
    Logo, Pedrinho é um tchutchuca.

    Este é um argumento válido. Isto quer dizer que, mesmo não sabendo o que significa ziriguidum ou tchutchuca, sabemos com certeza que, se as duas premissas forem verdadeiras, a conclusão também será verdadeira.
    O dilema do prisioneiro foi originalmente formulado por Merrill Flood e Melvin Dresher enquanto trabalhavam na RAND em 1950. Mais tarde, Albert W. Tucker fez a sua formalização com o tema da pena de prisão e deu ao problema geral esse nome específico. O dilema do prisioneiro (DP) dito clássico funciona da seguinte forma:


    Dois suspeitos, A e B, são presos pela polícia.

    A polícia tem provas insuficientes para os condenar, mas, separando os prisioneiros, oferece a ambos o mesmo acordo: se um dos prisioneiros, confessando, testemunhar contra o outro e esse outro permanecer em silêncio, o que confessou sai livre enquanto o cúmplice silencioso cumpre 10 anos de sentença.

    Se ambos ficarem em silêncio, a polícia só pode condená-los a 6 meses de cadeia cada um. Se ambos traírem o comparsa, cada um leva 5 anos de cadeia.

    Cada prisioneiro faz a sua decisão sem saber que decisão o outro vai tomar, e nenhum tem certeza da decisão do outro. A questão que o dilema propõe é: o que vai acontecer? Como o prisioneiro vai reagir?
    Problema de lógica.

    Vamos ler o seguinte texto e tentar perceber onde está o problema:


    Certa vez, em uma pequena cidade do interior do Brasil, um fato inusitado aconteceu. Era época de eleição, e um político discursava ferozmente em praça pública. Praticamente gritava ao microfone:

    - Os atos legítimos de um governo são aqueles que dizem respeito ao interesse de seus membros enquanto grupo! Ele deve interferir na vida das pessoas apenas se as ações por elas promovidas envolvam terceiros! Se a pessoa estiver agindo por si própria, e fazendo coisas que só atinjam a ela mesma, deve ter respeitado o seu direito de total liberdade! Devemos ser livres no que diz respeito a nós mesmos! Nenhum governo deve nos tirar esse direito!

    O político, então, foi muito aplaudido. Pessoas gritavam o seu nome, dizendo que estava certo, que era isso mesmo, que ele tinha razão! E ele então continuou:

    - No nosso governo, cada brasileiro terá uma poupança, para economizar, e ter assim garantida uma velhice segura. Cada um de nós depositará cada centavo não gasto em uma conta aberta automaticamente pelo governo. Uma velhice sadia para todos nós!

    Novamente muitas palmas. Novamente palavras de apoio e admiração.