segunda-feira, 14 de maio de 2012

Cosmogonia e Mito


 Um pouco sobre as primeiras aulas na CENAPEC: 

No século VII a.C as cosmogonias começaram a ser discutidas em praça pública. Agora, o que são cosmogonias? Vamos pensar assim: o termo é formado por duas palavras gregas. Uma delas é cosmos, que significa ordem, organização, harmonia; e a outra é gonia, que significa gênese. Juntando as duas coisas temos algo como um discurso a respeito de como as coisas começaram, se iniciaram. Um das características das cosmogonias é que dentro de si, nelas, em si mesmo, não há discussão. As cosmogonias são sistemas explicação do mundo sobre os quais não se dúvida, não se coloca dúvidas porque há muito de crença envolvido.

Elas não são, portanto, críticas, assim como é a Filosofia. Forma-se então uma racionalidade, uma racionalidade pública. Logo a filosofia é filha da polis, é filha a cidade. Ela precisa de pessoas que façam o que estamos fazendo aqui nesse momento: acessando as idéias e, a partir delas, colocando problemas e

Para termos uma idéia melhor sobre o que estamos falando, vejamos este trecho da Teogonia, um poema grego escrito por Hesíodo (século VII ou VIII a.C) que narra, através da mitologia, a origem dos deuses e do universo:

Primeiro que tudo surgiu o Caos, e depois Gaia (Terra) de amplo peito, - ou seja, a Terra nasce do caos, e é bom que a gente entenda o que é esse caos. O caos é a desorganização a partir do qual as coisas podem se organizar. É uma confusão primordial mas na qual já está implicada a idéia de ordem - para sempre firme alicerce de todas as coisas, e o brumoso Tártaro (que é submundo, o mundo dos mortos) num recesso da terra de largos caminhos, e Eros (o deus do amor, da paixão e que a unir as coisas), o mais belo entre os deuses imortais, e que amolece os membros e, no peito de todos os deuses e de todos os homens, domina o espírito e a vontade ponderada. Do Caos nasceram Érebo e a negra Noite; e da Noite, por sua vez, surgiu o Éter e o Dia, que ela concebeu e deu à luz depois de sua ligação amorosa com Érebo. E a Terra gerou primeiro Urano (o céu) constelado, igual a ela própria, para a cobrir em toda a volta, e para ser eternamente a morada segura dos deuses bem-aventurados.

Gaia teve com Urano, seu primeiro filho, outros filhos sendo estes 3 ciclopes, 50 hacatonquiros e 12 Titãs. Um desses titãs é Cronos (deus do tempo) que terminará por vencer o pai, Urano, passa a dominar, a reinar entre os deuses. Zeus, que todos conhecemos como senhor do Olimpo, é filho de Cronos com sua irmã Reia. Gaia havia profetizado que Cronos seria morto por um de seus filhos. Comeu todos, mas Reia o enganou a respeito de um, Zeus, que mais tarde libertou todos os seus irmãos (Poseidon, Hera, Hades, Héstia e Démeter) que os ajudou a matar o pai.

O mito de Édipo

A princípio, Laio não acreditou no oráculo e teve um filho com Jocasta. Quando a crian­ça nasceu, porém, arrependido e com medo da profecia, ordenou que o recém-nascido fosse abandonado numa montanha, com os tornoze­los furados, amarrados por uma corda. O edema provocado pela ferida é a origem do nome Édipo, que significa "pés inchados".
Mas o menino Édipo não morreu. Alguns pastores o encontraram e o levaram ao rei de Corinto, Polibo, que o criou como se fosse seu filho legítimo. Já adulto, Édipo ficou sabendo que era filho adotivo. Surpreso, viajou em busca do oráculo de Delfos para conhecer o mistério de seu destino. O oráculo revelou que seu destino era matar o próprio pai e se casar com a própria mãe. Espantado com essa profecia, Édipo decidiu deixar Corinto e rumar em direção a Tebas. No decorrer da viagem encontrou-se com Laio. De forma arrogante o rei ordenou-lhe que dei­xasse o caminho livre para sua passagem. Édipo desobedeceu às ordens do desconhecido. Explo­diu, então, uma luta entre ambos, na qual Édiio matou Laio. Sem saber que tinha matado o próprio pai, Édipo prosseguiu sua viagem para Tebas. No caminho deparou-se com a Esfinge, um monstro me­tade leão, metade mulher, que lançava enigmas aos viajantes e devorava quem não os decifras­se. A Esfinge atormentava os moradores de Tebas. O enigma proposto pela Esfinge era o seguinte: "Qual o animal que de manhã tem quatro pés, dois ao meio-dia e três à tarde?" Édipo respondeu: "É o homem. Pois na manhã da vida (infância) engatinha com pés e mãos; ao meio-dia (na fase adulta) anda sobre dois pés; e à tar­de (velhice) necessita das duas pernas e do apoio de uma bengala". Furiosa por ver o enigma resolvido, a Esfinge se ma­tou. O povo tebano saudou Édipo como seu novo rei. Deram-lhe como esposa Jocasta, a viúva de Laio. Ignorando tudo, Édipo ca­sou-se com a própria mãe. Uma violenta peste abateu-se então sobre a cidade. Consultado, o oráculo respondeu que a peste não findaria até que o assassino de Laio fosse castigado. Ao longo das investigações para descobrir o criminoso, a verdade foi esclarecida. Incon­formado com o destino, Édipo cegou-se e Jocas­ta enforcou-se. Édipo deixou Tebas, partindo para um exílio na cidade de Colona.

Mito de Pandora
Prometeu, deus cujo nome significa em grego “aquele que vê o futuro”, doou ao homem o fogo e as técnicas para acendê-lo e mantê-lo. Zeus, o soberano dos deuses se enfureceu com esse ato, porque o segredo do fogo deveria ser mantido entre os deuses. Por isso, ordenou a Hefesto, deus do fogo e das habilidades técnicas, que criasse uma mulher que fosse perfeita, e que a apresentasse à assembléia dos deuses. Atena, a deusa da sabedoria e da guerra, vestiu essa mulher com uma roupa branquíssima e adornou-lhe a cabeça com uma guirlanda de flores montada sobre uma coroa de ouro. Hefesto a conduziu pessoalmente aos deuses, e todos ficaram admirados; cada um lhe deu um dom particular. Atena lhe ensinou as artes que convém ao seu sexo, como a arte de tecer. Afrodite lhe deu o encanto, que despertaria o desejo dos homens. As Cárites, deusas da beleza, e a deusa da persuasão ornaram seu pescoço com colares de ouro. Hermes, o mensageiro dos deuses, lhe concedeu a capacidade de falar, juntamente com a arte de seduzir os corações por meio de discursos insinuantes. Depois que todos os deuses lhe deram seus presentes, ela recebeu o nome de Pandora, que em grego quer dizer "todos os dons".
Finalmente, Zeus lhe entregou uma caixa bem fechada, e ordenou a ela que a levasse como presente a Prometeu. Entretanto, ele não quis receber nem Pandora, nem a caixa, e recomendou a seu irmão, Epimeteu, que também não aceitasse nada vindo de Zeus. Epimeteu, cujo nome significa "aquele que reflete tarde demais", ficou encantado com a beleza de Pandora e a tomou como esposa.
A caixa de Pandora foi então aberta e de lá escaparam a Senilidade, a Insanidade, a Doença, a Inveja, a Paixão, o Vício, a Praga, a Fome e todos os outros males, que se espalharam pelo mundo e tornaram miserável a existência dos homens a partir de então. Epimeteu tentou fechá-la, mas só restou dentro a Esperança, uma criatura alada que estava prestes a voar, mas que ficou aprisionada na caixa.
Esse mito, como muitos outros, tem versões diferentes. Numa delas, por exemplo, a Esperança chega a escapar da caixa, e é graças a ela que os homens conseguem enfrentar todos os males e não desistem de viver. Além disso, nessa outra narrativa, o presente de Hermes não é a capacidade de seduzir, mas sim a falsidade. Fala-se, ainda, que não era uma caixa o que Pandora levava, mas um vaso. Essas va¬riações, aliás, mostram como os mitos sofriam modificações à medida que eram narrados.
Na Grécia antiga, em suma, é importante ressaltar essa "familiaridade" das pessoas com os deuses. Os mitos formavam, para os gregos daquele tempo, um sistema complexo, que explicava praticamente todos os elementos de sua cultura. Eles estavam organizados num conjunto coerente, lógico, e constituíam uma maneira de ver o mundo, de explicá-lo e compreendê-lo.

Como nós vimos neste texto, estas estórias não se utilizavam de lógica alguma para a explicação do mundo, sendo criações que misturavam nossa imaginação a alguns elementos da realidade, conhecimento e história de um povo.

Isto significa que estamos em meio a algo que costumamos chamar de pensamento mítico.

Uma pergunta que a gente se fazer, nesse momento, só pra deixar as coisas um pouco mais divertidas é: será que esse modo de pensar miticamente já nos abandonou, ou ainda muito do que fazemos e a forma como pensamos carrega muita coisa da estrutura da maneira mítica de pensar?

Da pra gente fazer uma comparação entre a explicação do nascimento do mundo dos gregos com aquela que temos em nossas religiões? E a ciência mesmo?
Entretanto, vimos que a forma como explicamos as coisas tem muito a ver com o mundo em que vivemos. Para aquele estado em que as coisas se encontravam (pouca tecnologia, poucas pessoas, pouca troca de informações), o pensamento mítico parecia ser suficiente, dando conta de explicar as coisas de um modo que nos parecia satisfatório.
Acontece que, em certo momento da história, algo mudou. E essa mudança acabou mostrando aos homens que existiam outras formas de ver o mundo, o que vai tornar possível o nascimento da filosofia. Grande parte da mudança necessária para o nascimento da filosofia ocorreu por volta do século VII a.C., e teve início com o grande aumento do comércio que aconteceu nesta época, principalmente nas regiões do mundo dominadas pela Grécia.
Esta informação, em um primeiro momento, poderia nos fazer pensar: "ora, mas como este acontecimento, ligado à história e à economia, pode ser considerado tão importante para o nosso assunto?" Ocorre que este aumento na venda e na troca de produtos terá como resultado:
- maior riqueza, o que vai favorecer importantes progressos tecnológicos (na engenharia ou na astronomia, por exemplo);
- um maior número de viagens, o que vai possibilitar o conhecimento de novas culturas;
- uma maior circulação de pessoas nas cidades, com um crescimento no número de estrangeiros. Você pode imaginar o que isso causou?
Se antes tínhamos pouco contato entre as pessoas, neste novo momento da história, indivíduos diferentes, de lugares diferentes, começaram a se encontrar mais, a conversar mais, e esta troca de informações foi decisiva para o nascimento da Filosofia.
Algumas pessoas começaram a perceber que a maneira de explicar o mundo usando os mitos não fazia muito sentido. Podemos entender assim um dos motivos que fizeram com que elas pensassem desta maneira: eu explico as coisas por um mito e você, por outro. Ora, deve haver alguma coisa errada aí, não é mesmo? Uma explicação sobre como as coisas são e funcionam não deveria ser universal, ou seja, não deveria valer para todo mundo? É mais ou menos como a explicação sobre a chuva, que deve ser igual aqui ou no Japão. Não dá para ter uma aqui e uma diferente lá. Falaríamos de coisas distintas, não é? Percebendo isto, certos homens, incomodados com esta situação, tentaram encontrar um princípio que valesse para tudo, e que servisse para explicar todas as coisas.
Estes foram os primeiros filósofos.
E é então, neste momento, que nasce a filosofia: quando o pensamento mítico, que com os novos conhecimentos do homem sobre o mundo perde o seu valor, é substituído ou na verdade começa a ser substituído por um princípio que pode valer para todas coisas, em todos os lugares, podendo também ser utilizado para tentar explicar as novas descobertas daquele tempo.
Foi assim, portanto, para suprir as necessidades deste novo mundo, que o homem fez a passagem do pensamento mítico para o chamado pensamento racional, guiado pela filosofia.

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