Um pouco sobre as primeiras aulas na CENAPEC:
No
século VII a.C as cosmogonias começaram a ser discutidas em praça
pública. Agora, o que são cosmogonias? Vamos pensar assim: o termo
é formado por duas palavras gregas. Uma delas é cosmos, que
significa ordem, organização, harmonia; e a outra é gonia, que
significa gênese. Juntando as duas coisas temos algo como um
discurso a respeito de como as coisas começaram, se iniciaram. Um
das características das cosmogonias é que dentro de si, nelas, em
si mesmo, não há discussão. As cosmogonias são sistemas
explicação do mundo sobre os quais não se dúvida, não se coloca
dúvidas porque há muito de crença envolvido.
Elas
não são, portanto, críticas, assim como é a Filosofia. Forma-se
então uma racionalidade, uma racionalidade pública. Logo a
filosofia é filha da polis, é filha a cidade. Ela precisa de
pessoas que façam o que estamos fazendo aqui nesse momento:
acessando as idéias e, a partir delas, colocando problemas e
Para
termos uma idéia melhor sobre o que estamos falando, vejamos este
trecho da Teogonia, um poema grego escrito por Hesíodo (século VII
ou VIII a.C) que narra, através da mitologia, a origem dos deuses e
do universo:
Primeiro
que tudo surgiu o Caos, e depois Gaia (Terra) de amplo peito, - ou
seja, a Terra nasce do caos, e é bom que a gente entenda o que é
esse caos. O caos é a desorganização a partir do qual as coisas
podem se organizar. É uma confusão primordial mas na qual já
está implicada a idéia de ordem
- para sempre firme alicerce de todas as coisas, e o brumoso Tártaro
(que
é submundo, o mundo dos mortos)
num recesso da terra de largos caminhos, e Eros (o
deus do amor, da paixão e que a unir as coisas),
o mais belo entre os deuses imortais, e que amolece os membros e, no
peito de todos os deuses e de todos os homens, domina o espírito e a
vontade ponderada. Do Caos nasceram Érebo e a negra Noite; e da
Noite, por sua vez, surgiu o Éter e o Dia, que ela concebeu e deu à
luz depois de sua ligação amorosa com Érebo. E a Terra gerou
primeiro Urano (o céu) constelado, igual a ela própria, para a
cobrir em toda a volta, e para ser eternamente a morada segura dos
deuses bem-aventurados.
Gaia
teve com Urano, seu primeiro filho, outros filhos sendo estes 3
ciclopes, 50 hacatonquiros e 12 Titãs. Um desses titãs é Cronos
(deus do tempo) que terminará por vencer o pai, Urano, passa a
dominar, a reinar entre os deuses. Zeus, que todos conhecemos como
senhor do Olimpo, é filho de Cronos com sua irmã Reia. Gaia havia
profetizado que Cronos seria morto por um de seus filhos. Comeu
todos, mas Reia o enganou a respeito de um, Zeus, que mais tarde
libertou todos os seus irmãos (Poseidon, Hera, Hades, Héstia e
Démeter) que os ajudou a matar o pai.
O
mito de Édipo
A
princípio, Laio não acreditou no oráculo e
teve um filho com Jocasta. Quando a criança
nasceu, porém, arrependido e com medo da profecia,
ordenou que o recém-nascido fosse abandonado
numa montanha, com os tornozelos
furados, amarrados por uma corda. O edema provocado
pela ferida é a origem do nome Édipo,
que significa "pés inchados".
Mas
o menino Édipo não morreu. Alguns pastores
o encontraram e o levaram ao rei de Corinto, Polibo, que o criou como
se fosse seu filho legítimo.
Já adulto, Édipo ficou sabendo que era
filho adotivo. Surpreso, viajou em busca do oráculo de Delfos para
conhecer o mistério de seu
destino. O oráculo revelou que seu destino era
matar o próprio pai e se casar com a própria mãe.
Espantado com essa profecia, Édipo decidiu
deixar Corinto e rumar em direção a Tebas. No decorrer da viagem
encontrou-se com Laio. De
forma arrogante o rei ordenou-lhe que deixasse o caminho livre
para sua passagem. Édipo desobedeceu às ordens do desconhecido.
Explodiu, então, uma luta entre ambos, na qual Édiio matou
Laio. Sem saber que tinha matado o próprio pai, Édipo prosseguiu
sua viagem para Tebas. No caminho deparou-se com a Esfinge, um
monstro metade leão, metade mulher, que lançava enigmas aos
viajantes e devorava quem não os decifrasse. A Esfinge
atormentava os moradores de Tebas. O enigma proposto pela Esfinge era
o seguinte: "Qual o animal que de manhã tem quatro pés, dois
ao meio-dia e três à tarde?" Édipo respondeu: "É o
homem. Pois na manhã da vida (infância) engatinha com pés e mãos;
ao meio-dia (na fase adulta) anda sobre dois pés; e à tarde
(velhice) necessita das duas pernas e do apoio de uma bengala".
Furiosa por ver o enigma resolvido, a Esfinge se matou. O povo
tebano saudou Édipo como seu novo rei. Deram-lhe como esposa
Jocasta, a viúva de Laio. Ignorando tudo, Édipo casou-se com a
própria mãe. Uma violenta peste abateu-se então sobre a cidade.
Consultado, o oráculo respondeu que a peste não findaria até que o
assassino de Laio fosse castigado. Ao longo das investigações para
descobrir o criminoso, a verdade foi esclarecida. Inconformado
com o destino, Édipo cegou-se e Jocasta enforcou-se. Édipo
deixou Tebas, partindo para um exílio na cidade de Colona.
Mito
de Pandora
Prometeu,
deus cujo nome significa em grego “aquele que vê o futuro”, doou
ao homem o fogo e as técnicas para acendê-lo e mantê-lo. Zeus, o
soberano dos deuses se enfureceu com esse ato, porque o segredo do
fogo deveria ser mantido entre os deuses. Por isso, ordenou a
Hefesto, deus do fogo e das habilidades técnicas, que criasse uma
mulher que fosse perfeita, e que a apresentasse à assembléia dos
deuses. Atena, a deusa da sabedoria e da guerra, vestiu essa mulher
com uma roupa branquíssima e adornou-lhe a cabeça com uma
guirlanda de flores montada sobre uma coroa de ouro. Hefesto a
conduziu pessoalmente aos deuses, e todos ficaram admirados; cada
um lhe deu um dom particular. Atena lhe ensinou as artes que convém
ao seu sexo, como a arte de tecer. Afrodite lhe deu o encanto, que
despertaria o desejo dos homens. As Cárites, deusas da beleza, e a
deusa da persuasão ornaram seu pescoço com colares de ouro.
Hermes, o mensageiro dos deuses, lhe concedeu a capacidade de falar,
juntamente com a arte de seduzir os corações por meio de discursos
insinuantes. Depois que todos os deuses lhe deram seus presentes,
ela recebeu o nome de Pandora, que em grego quer dizer "todos os
dons".
Finalmente,
Zeus lhe entregou uma caixa bem fechada, e ordenou a ela que a
levasse como presente a Prometeu. Entretanto, ele não quis receber
nem Pandora, nem a caixa, e recomendou a seu irmão, Epimeteu, que
também não aceitasse nada vindo de Zeus. Epimeteu, cujo nome
significa "aquele que reflete tarde demais", ficou
encantado com a beleza de Pandora e a tomou como esposa.
A
caixa de Pandora foi então aberta e de lá escaparam a Senilidade, a
Insanidade, a Doença, a Inveja, a Paixão, o Vício, a Praga, a Fome
e todos os outros males, que se espalharam pelo mundo e tornaram
miserável a existência dos homens a partir de então. Epimeteu
tentou fechá-la, mas só restou dentro a Esperança, uma criatura
alada que estava prestes a voar, mas que ficou aprisionada na caixa.
Esse
mito, como muitos outros, tem versões diferentes. Numa delas, por
exemplo, a Esperança chega a escapar da caixa, e é graças a ela
que os homens conseguem enfrentar todos os males e não desistem de
viver. Além disso, nessa outra narrativa, o presente de Hermes não
é a capacidade de seduzir, mas sim a falsidade. Fala-se, ainda,
que não era uma caixa o que Pandora levava, mas um vaso. Essas
va¬riações, aliás, mostram como os mitos sofriam modificações à
medida que eram narrados.
Na
Grécia antiga, em suma, é importante ressaltar essa "familiaridade"
das pessoas com os deuses. Os mitos formavam, para os gregos daquele
tempo, um sistema complexo, que explicava praticamente todos os
elementos de sua cultura. Eles estavam organizados num conjunto
coerente, lógico, e constituíam uma maneira de ver o mundo, de
explicá-lo e compreendê-lo.
Como
nós vimos neste texto, estas estórias não se utilizavam de lógica
alguma para a explicação do mundo, sendo criações que misturavam
nossa imaginação a alguns elementos da realidade, conhecimento e
história de um povo.
Isto
significa que estamos em meio a algo que costumamos chamar de
pensamento mítico.
Uma
pergunta que a gente se fazer, nesse momento, só pra deixar as
coisas um pouco mais divertidas é: será que esse modo de pensar
miticamente já nos abandonou, ou ainda muito do que fazemos e a
forma como pensamos carrega muita coisa da estrutura da maneira
mítica de pensar?
Da
pra gente fazer uma comparação entre a explicação do nascimento
do mundo dos gregos com aquela que temos em nossas religiões? E a
ciência mesmo?
Entretanto,
vimos que a forma como explicamos as coisas tem muito a ver com o
mundo em que vivemos. Para aquele estado em que as coisas se
encontravam (pouca tecnologia, poucas pessoas, pouca troca de
informações), o pensamento mítico parecia ser suficiente, dando
conta de explicar as coisas de um modo que nos parecia satisfatório.
Acontece
que, em certo momento da história, algo mudou. E essa mudança
acabou mostrando aos homens que existiam outras formas de ver o
mundo, o que vai tornar possível o nascimento da filosofia. Grande
parte da mudança necessária para o nascimento da filosofia ocorreu
por volta do século VII a.C., e teve início com o grande aumento do
comércio que aconteceu nesta época, principalmente nas regiões do
mundo dominadas pela Grécia.
Esta
informação, em um primeiro momento, poderia nos fazer pensar: "ora,
mas como este acontecimento, ligado à história e à economia, pode
ser considerado tão importante para o nosso assunto?" Ocorre
que este aumento na venda e na troca de produtos terá como
resultado:
-
maior riqueza, o que vai favorecer importantes progressos
tecnológicos (na engenharia ou na astronomia, por exemplo);
-
um maior número de viagens, o que vai possibilitar o conhecimento de
novas culturas;
-
uma maior circulação de pessoas nas cidades, com um crescimento no
número de estrangeiros. Você pode imaginar o que isso causou?
Se
antes tínhamos pouco contato entre as pessoas, neste novo momento da
história, indivíduos diferentes, de lugares diferentes, começaram
a se encontrar mais, a conversar mais, e esta troca de informações
foi decisiva para o nascimento da Filosofia.
Algumas
pessoas começaram a perceber que a maneira de explicar o mundo
usando os mitos não fazia muito sentido. Podemos entender assim um
dos motivos que fizeram com que elas pensassem desta maneira: eu
explico as coisas por um mito e você, por outro. Ora, deve haver
alguma coisa errada aí, não é mesmo? Uma explicação sobre como
as coisas são e funcionam não deveria ser universal, ou seja, não
deveria valer para todo mundo? É mais ou menos como a explicação
sobre a chuva, que deve ser igual aqui ou no Japão. Não dá para
ter uma aqui e uma diferente lá. Falaríamos de coisas distintas,
não é? Percebendo isto, certos homens, incomodados com esta
situação, tentaram encontrar um princípio que valesse para tudo, e
que servisse para explicar todas as coisas.
Estes
foram os primeiros filósofos.
E
é então, neste momento, que nasce a filosofia: quando o pensamento
mítico, que com os novos conhecimentos do homem sobre o mundo perde
o seu valor, é substituído ou na verdade começa a ser substituído
por um princípio que pode valer para todas coisas, em todos os
lugares, podendo também ser utilizado para tentar explicar as novas
descobertas daquele tempo.
Foi
assim, portanto, para suprir as necessidades deste novo mundo, que o
homem fez a passagem do pensamento mítico para o chamado pensamento
racional, guiado pela filosofia.

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