terça-feira, 16 de junho de 2009

Sobre Kant





O que há de importante, para nós, em Kant.

O que é a razão?

A razão é uma estrutura vazia, uma forma pura sem conteúdos. Essa estrutura (e não os conteúdos) é que é universal, a mesma para todos os seres humanos, em todos os tempos e lugares. Essa estrutura é inata, isto é, não é adquirida através da experiência. Por ser inata e não depender da experiência para existir, a razão é, do ponto de vista do conhecimento, anterior à experiência. Ou, como escreve Kant, a estrutura da razão é a priori (vem antes da experiência e não depende dela).

Porém, os conteúdos que a razão conhece e nos quais ela pensa, esses sim, dependem da experiência. Sem ela, a razão seria sempre vazia, inoperante, nada conhecendo. Assim, a experiência fornece a matéria (os conteúdos) do conhecimento para a razão e esta, por sua vez, fornece a forma (universal e necessária) do conhecimento. A matéria do conhecimento, por ser fornecida pela experiência, vem depois desta e por isso é, no dizer de Kant, a posteriori.

Qual o engano dos inatistas? Supor que os conteúdos ou a matéria do conhecimento são inatos. Não existem idéias inatas.

Qual o engano dos empiristas? Supor que a estrutura da razão é adquirida por experiência ou causada pela experiência. Na verdade, a experiência não é causa das idéias, mas é a ocasião para que a razão, recebendo a matéria ou o conteúdo, formule as idéias.

Dessa maneira, a estrutura da razão é inata e universal, enquanto os conteúdos são empíricos e podem variar no tempo e no espaço, podendo transformar-se com novas experiências e mesmo revelarem-se falsos, graças a experiências novas.

O que é o conhecimento racional, sem o qual não há Filosofia nem ciência?

É a síntese que a razão realiza entre uma forma universal inata e um conteúdo particular oferecido pela experiência.

Qual é a estrutura da razão?

A razão é constituída por três estruturas a priori:

1. a estrutura ou forma da sensibilidade, isto é, a estrutura ou forma da percepção sensível ou sensorial;

2. a estrutura ou forma do entendimento, isto é, do intelecto ou inteligência;

3. a estrutura ou forma da razão propriamente dita, quando esta não se relaciona nem com os conteúdos da sensibilidade, nem com os conteúdos do entendimento, mas apenas consigo mesma. Como, para Kant, só há conhecimento quando a experiência oferece conteúdos à sensibilidade e ao entendimento, a razão, separada da sensibilidade e do entendimento, não conhece coisa alguma e não é sua função conhecer. Sua função é a de regular e controlar a sensibilidade e o entendimento. Do ponto de vista do conhecimento, portanto, a razão é a função reguladora da atividade do sujeito do conhecimento.

O novo iluminismo




Para Jürgen Habermas, filósofo alemão contemporâneo, o paradigma da consciência encontra-se esgotado e deve ser substituído pelo paradigma da compreensão mútua entre os sujeitos capazes de falar e de agir.

Esse paradigma tem por base a atitude performativa dos participantes da interação que coordenam seus planos de ação, por meio de um acordo entre si, sobre qualquer coisa no mundo.

O exercício da razão plena — ou seja, aquela que reúne exigências da ciência (verdade proposicional), da moral (justeza normativa) e da arte (veracidade subjetiva e coerência estética) — é a tarefa do novo lluminismo, que deve mostrar aos defensores do irracionalismo que a crítica não-racional leva ao conformismo, uma vez que, sem o trabalho conceituai, não há como sair da facticidade, ou seja, do vivido.
Assim, a nova razão crítica precisa:

• fazer a crítica dos limites internos e externos da razão, consciente de sua
vulnerabilidade ao irracional;
• estabelecer os princípios éticos que fundamentam sua função normativa;
• vincular essa construção a raízes sociais contemporâneas, submetendo-a à prova de realidade. Esse solo social aparece no processo comunicativo, dentro do qual
os sujeitos propõem e criticam argumentos, criticam as motivações subjacentes
e desenvolvem as capacidades humanas de saber, de busca da verdade, da justiça e da autonomia.

A crise da razão




Aqui vai o trecho a partir do qual estudamos o momento no qual a razão passa a ser colocada em xeque pela filosofia. Acima, os filósofos Adorno e Horkheimer, que escreveram a Dialética do Esclarecimento.

No final do século XX, testemunhou-se o despertar de um movimento irracionalista — chamado de desconstrutivismo ou pós-modernismo, que critica o uso da razão como arma do poder e agente da repressão, em vez de ser instrumento da liberdade humana, como proclamado pelo lluminismo do século XVIII.

Seguindo essa corrente, vemos florescer o individualismo exacerbado, o narcisismo, o vale-tudo, a desrazão que leva ao aniquilamento de todos os princípios e valores.
Mas será que podemos atribuir a culpa pelos descaminhos ao uso da razão? Na verdade, os conceitos de razão e de crítica devem ser reexaminados.

Quando falamos em razão, não mais acreditamos ingenuamente que só pelo fato de sermos humanos, sejamos automaticamente racionais. Devemos, a partir dos estudos de Marx e de Freud, admitir que a razão pode também ser deturpadora e pervertida, ou seja, aceitar que tanto a ideologia (ou falsa consciência) quanto os impulsos do inconsciente são responsáveis por distorções que colocam a razão a serviço da mentira e do poder.

Exemplificando: quando a racionalidade assume as vestes de razão de Estado ou de razão econômica, estamos lidando com uma visão parcial e instrumental da razão que tenta adequar meios a fins. É a razão que observa e normaliza, que calcula, classifica e domina, em função de interesses de classes, e não de interesses da sociedade como um todo. E se o poder que oprime fala em nome da racionalidade, para combatê-lo parece necessário contestar a própria razão. Esse tipo de racionalidade deve ser contestado, mas não por meio do irracionalismo, e sim pela atividade crítica da razão mais completa e mais rica, que dialoga e se exerce na intersubjetividade.