segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Falácias

Falácias causais

Os argumentos causais são os argumentos onde se conclui que uma coisa ou acontecimento causa outra. São muito comuns mas, como a relação entre causa e efeito é complexa, é fácil cometer erros. Em regra, diz-se que C é a causa do efeito E se e só se:

1. Geralmente, quando C ocorre, também E ocorre; e
2. Geralmente, se C não ocorre, então E também não ocorre.

Diz-se "geralmente" porque há sempre excepções. Diz-se, por exemplo, que riscar o fósforo é a causa da chama porque:
1. Geralmente, quando riscamos o fósforo ele acende (excepto quando riscamos o fósforo dentro de água...); e
2. Geralmente, quando o fósforo não é riscado, ele não acende (excepto quando o acendemos com um maçarico...).

Muitos especialistas requerem também que uma afirmação causal seja apoiada por uma lei da natureza. Por exemplo, a afirmação "riscar o fósforo é a causa da chama" é justificado pelo princípio "a fricção produz calor, e o calor produz o fogo".


- Depois disso, por causa disso (post hoc ergo propter hoc)

O nome em Latim significa: "depois disso, logo, por causa disso". Isto descreve a falácia. Um autor comete a falácia quando pressupõe que, por uma coisa se seguir a outra, então aquela teve de ser causada por esta.
Exemplos:
1. A imigração do Alentejo para Lisboa aumentou mal a prosperidade aumentou. Portanto, o incremento da imigração foi causado pelo incremento da prosperidade.
2. Tomei o EZ-Mata-Gripe e dois dias depois a minha constipação desapareceu...

Prova: Mostre que a correlação é coincidência, mostrando: 1) que o "efeito" teria ocorrido mesmo sem a alegada causa ocorrer, ou que 2) o efeito teve uma causa diferente da que foi indicada.


- Efeito conjunto

Sustenta-se que uma coisa causa outra mas, de facto, são ambas o efeito de uma mesma causa subjacente. Esta falácia é muitas vezes apresentada como um caso especial de falácia post hoc ergo propter hoc.
Exemplos:

1. Estamos a viver uma fase de elevado desemprego que é provocado por um baixo consumo. (De facto, ambos podem ser causados por taxas de juro muito elevadas.)
2. Estás com febre e isso está a fazer com que te enchas de borbulhas. (De facto, ambos os sintomas são causados pelo sarampo.)

Prova: Identifique os dois efeitos e mostre que ambos são provocados pela mesma causa subjacente. É preciso indicar a causa oculta e provar que ela causa cada efeito.

- Causa genuína, mas insignificante

O objecto ou evento identificado como a causa de um efeito, é uma causa genuína — mas insignificante quando comparada com outras causas desse evento. Note-se que não se trata desta falácia quando todas as outras causas são igualmente insignificantes. Não é falacioso dizer que a sua ajuda causou a derrota do partido do governo, porque o seu voto tem o mesmo peso de qualquer outro voto e, portanto, é igualmente parte da causa.
Exemplos:

1. Fumar causa a poluição do ar em Edmonton. (É verdade mas o efeito do fumo do tabaco é insignificante comparado com o efeito poluente dos automóveis.)
2. Deixando a tua fornalha acesa durante a noite contribuis para o aquecimento global do planeta.

Prova: Identifique uma causa mais significativa.
- Tomar o efeito pela causa
A relação entre causa e efeito é invertida.
Exemplos:
1. O cancro faz fumar.
2. A propagação da SIDA foi provocada pela educação sexual. (De facto, o desenvolvimento da educação sexual foi provocado pela propagação da SIDA.)
Prova: Exponha um argumento causal, mostrando que a relação entre causa e efeito foi, de facto, invertida.

- Causa complexa
O efeito é provocado por um certo número de objectos ou eventos, dos quais a causa identificada é apenas um parte. Uma variante disto são os ciclos de feedback onde o efeito é ele mesmo parte da causa.
Exemplos:
1. O acidente não teria ocorrido se não fosse a má localização do arbusto. (Certo, mas o acidente não teria ocorrido se o condutor não estivesse bêbado, e se o peão tivesse prestado atenção ao trânsito.)
2. A explosão do Challenger foi causada pelo tempo frio. (Verdadeiro, mas não teria ocorrido se os anéis em o tivessem sido bem construídos.)
3. As pessoas estão com medo por causa do incremento do crime. (Certo, mas as pessoas têm sido levadas a violar a lei em consequência do seu medo. O que ainda aumenta mais o crime.)
Prova: Mostre que todas as causas e não apenas aquela que foi mencionada são precisas para explicar o efeito.
- Outros tipos de falácia

- Argumentum ad antiquitatem (Argumento de antiguidade ou tradição):
Basicamente consiste em afirmar que algo é verdadeiro ou bom só porque é antigo ou “sempre foi assim”.

- Argumentum ad hominem (Ataque ao argumentador):
Em vez de o argumentador provar a falsidade do enunciado, ele ataca a pessoa que fez o enunciado.
Ex: "A afirmação de Joãozinho é falsa, pois ele é um sujeito mal-educado".

- Argumentum ad ignorantiam (Argumento da Ignorância):

Ocorre quando algo é considerado verdadeiro simplesmente porque não foi provado que é falso (ou provar que algo é falso por não haver provas de que seja verdade). Note que é diferente do princípio científico de se considerar falso até que seja provado que é verdadeiro.
Ex: "Joãozinho diz a verdade, pois ninguém pode provar o contrário."
"É certeza que Deus exista, até que se prove o contrário."

- Non sequitur (Não segue):

Tipo de falácia na qual a conclusão não segue das premissas.
Ex: "É bom acabar com a pobreza neste país; É bom eliminar a corrupção neste país; Portanto, vamos votar no Joãozinho para presidente!"

Argumentum ad Baculum (Apelo à Força):
Utilização de algum tipo de privilégio, força, poder ou ameaça para impor a conclusão.
Ex: "Acredite em Deus, senão irá pro Inferno."

Argumentum ad Populum (Apelo ao Povo):
É a tentativa de ganhar a causa por apelar a uma grande quantidade de pessoas.
Ex: "Deus existe porque grande parte da população mundial acredita nele."

- Argumentum ad Numerum (Apelo ao número):

Semelhante ao "ad populum". Afirma que quanto mais pessoas acreditam em uma proposição, mais provável é a proposição de ser verdadeira.
Ex: "Deus existe pois 85% das pessoas acreditam que sim. Não podem estar todos enganados."

- Argumentum ad Verecundiam (Apelo à autoridade):
Argumentação baseada no apelo a alguma autoridade reconhecida para comprovar a premissa .
Ex: "Se Aristóteles disse isto, é verdade" ou "Se a Bíblia diz isto, isto necessariamente é a verdade".

- Dicto Simpliciter (Regra geral):
Ocorre quando uma regra geral é aplicada a um caso particular onde a regra não deveria ser aplicada.
Ex: "A palavra 'Cafú' não tem acento porque é oxítona terminada em u" (nesse caso o nome é próprio e a regra geral não se aplica)

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Texto de Mircea Eliade a respeito dos mitos - de cura e cosmogônicos

Os trechos abaixo fazem parte da obra de um filósofo romeno chamado Mirca Eliade (197-1986). Leiam com atenção, e depois respondam as questões que se seguirão aos textos.


A esse respeito é interessante relembrar que, entre os Navajo, o mito cosmogônico, seguido do mito da saída dos primeiros homens do seio da Terra, é recitado sobretudo por ocasião das curas ou durante a iniciação de um xamã. "Todas as cerimônias são centralizadas ao redor de um paciente, Hatrali (aquele sobre o qual se canta), que pode ser um doente ou simplesmente um enfermo mental como, por exemplo, um sujeito assustado por um sonho, ou alguém que necessita de uma cerimônia apenas para aprendê-la no curso de sua iniciação à capacidade de oficiar aquele canto, pois um medicine-man não pode efetuar uma cerimônia de cura enquanto ele mesmo não se submeteu à cerimônia". A cerimônia inclui igualmente a execução de desenhos complexos sobre a areia, que simbolizam as diferentes etapas da Criação e a história mítica dos deuses, dos ancestrais e da humanidade. Esses desenhos (que se assemelham estranhamente aos mandala indo-tibetanos) reatualizam um após outro os eventos ocorridos nos tempos míticos. Ouvindo a narrativa do mito cosmogônico (seguido da recitação dos mitos de origem) e contemplando os desenhos sobre a areia, o doente é projetado para fora do tempo profano e inserido na plenitude do Tempo primordial: ele é conduzido "para trás" até à origem do Mundo e assiste, assim, à cosmogonia.
A solidariedade entre o mito cosmogônico, o mito de origem da enfermidade e do remédio, e o ritual da cura mágica, pode ser admiravelmente bem observada entre os Na-khi, povo pertencente à família tibetana, mas que vive há muitos séculos no Sudeste da China, e especialmente, na província de Yün-nan. De acordo com as suas tradições, o Universo, no princípio, estava judiciosamente divi¬dido entre os Nâgas e os homens, mas uma inimizade os separou posteriormente. Furibundos, os Nâgas disseminaram pelo mundo as enfermidades, a esterilidade e todos os tipos de flageles. Os Nâgas podem igualmente roubar as almas dos homens, fazendo com que adoeçam. Se eles não forem ritualmente apaziguados, a vítima perece. Mas o sacerdote-xamã (dto-mba), pelo poder de seus encantamentos mágicos, é capaz de forçar os Nâgas a libertarem as almas roubadas e aprisionadas. O próprio xamã só é capaz de lutar contra os Nâgas porque o Xamã primordial, Dto-mba, com o concurso de Ganida, empreendeu essa luta no Tempo mítico. Ora, o ritual de cura consiste, a rigor, na recitação solene desse evento primordial. Como diz expressamente um texto traduzido por Rock: "Se não se conta a origem de Garuda, não se deve falar nele" 12. O xamã recita, pois, o mito da origem de Garuda: ele conta como os ovos foram criados por meio de magia sobre o Monte Kailasa e como desses ovos nasceram os Ganidas, que mais tarde desceram à planície para defender os homens das enfermidades provocadas pelos Nâgas. Mas, antes de contar o nascimento dos Garudas, o cântico ritual descreve rapidamente a criação do Mundo. "No tempo em que o céu apareceu, expandiram-se o sol, a lua, as estrelas, os planetas e a terra; quando surgiram as montanhas, os vales, as árvores e as rochas... naquele momento apareceram os Nâgas e os dragões, etc.".
A maioria desses cantos rituais de fins terapêuticos começa por evocar a cosmogonia. Eis um exemplo: "No princípio, no tempo em que os céus, o sol, a lua, as estrelas, os planetas e a terra ainda não haviam aparecido, quando ainda nada havia aparecido, etc." 14. E conta-se a criação do mundo, o nascimento dos demônios e o aparecimento das enfermidades, e, finalmente, a epifania do Xamã primordial Dto-mba, que forneceu os medicamentos necessários. Um outro texto 15 começa pela evocação do tempo mítico: "No começo, quando tudo era indistinto, etc.", para contar o nascimento dos Nâgas e dos Garudas. A seguir é contada a origem da doença (pois, como vimos mais acima, "se não se conta a origem do medicamento, não se deve utilizá-lo"), os meios pelos quais é propagada de uma geração a outra e, finalmente, a luta entre os demônios e o xamã: "O espírito, arremessando a flecha, dá doença aos dentes e à boca, o dto-mba arranca a flecha, etc.; o demônio dá doença ao corpo, arremessando a flecha no corpo, o dto-mba a arranca, etc." ,
Um outro canto ritual começa da seguinte maneira: "Ê preciso contar a origem do remédio, caso contrário não se pode falar nele. No tempo em que apareceram o céu, as estrelas, o sol, a lua e os planetas, e em que apareceu aterra", etc., "naquele tempo nasceu Ts'o-dze-p'er-ddu", Segue-se um mito muito longo, que explica a origem dos medicamentos: ausentando-se durante três dias de casa, Ts'o-dze-p'er-ddu encontra, ao regressar, seus pais mortos. Decide então partir em busca de um medicamento que impeça a morte, e vai para o país do Chefe dos Espíritos. Após inúmeras aventuras, ele rouba os medicamentos miraculosos, mas, perseguido pelo Espírito, cai por terra e os medicamentos se dispersam, dando existência às plantas medicinais.
Os mitos do Dilúvio são os mais numerosos e quase universalmente conhecidos. Ao lado dos mitos diluvianos, outros relatam a destruição da humanidade por cataclismos de proporções cósmicas: tremores de terra, incêndios, desabamento de montanhas, epidemias, etc. Evidentemente, esse Fim do Mundo não foi radical: foi antes o Fim de uma humanidade, a que se seguiu o aparecimento de uma nova humanidade. Mas a imersão total da Terra hás Águas ou sua destruição pelo fogo, seguida pela emersão de uma Terra virgem, simbolizam a regressão ao Caos e à cosmogonia.
Em grande número de mitos, o Dilúvio está relacionado a uma falha ritual, que provocou a cólera do Ente Supremo; algumas vezes, resulta simplesmente da vontade de um Ente divino de acabar com a humanidade. Mas, ao examinar os mitos que anunciam o Dilúvio próximo, constatamos que uma das causas principais reside nos pecados dos homens, assim como na decrepitude do Mundo. O Dilúvio abriu o caminho para uma recriação do Mundo e, simultaneamente, para uma regeneração da humanidade. Em outros termos, o Fim do Mundo no passado, e aquele que terá lugar no futuro, representam a projeção gigantesca, em escala macrocósmica e com uma intensidade dramática excepcional, do sistema mítico-ritual da festa do Ano Novo.
Os mais raros dentre os mitos primitivos sobre o Fim são os que não apresentam indicações precisas concernentes à eventual recriação do Mundo. Assim, na crença dos Kai da Nova Guiné, o Criador. Mâlengfung, após haver criado o Cosmo e o homem, retirou-se para o ponto mais extremo do Mundo, o horizonte, e adormeceu. Todas as vezes que ele se vira em seu sono, a Terra estremece. Um dia, porém, ele se erguerá de seu leito e destruirá o Céu, que se abaterá sobre a Terra e porá termo i toda a vida5. Em Namolut, uma das ilhas Carolinas, foi registrada a crença de que o Criador um dia destruirá a humanidade por causa de seus pecados. Mas os deuses continuarão a existir — o que implica a possibilidade de "uma nova criação". Em Aurepik, outra ilha das Carolinas, é o filho do Criador o responsável pela catástrofe. Quando ele perceber que o chefe de uma ilha não mais se ocupa de seus súditos, submergirá a ilha por meio de um ciclone l Também aqui não é certo que se trate de um Fim definitivo: a idéia de uma punição dos "pecados" implica geralmente a criação ulterior de uma nova humanidade.
Mais difíceis de interpretar são as crenças dos Negritos da Península de Malaca. Eles sabem que, um dia, K arei porá termo ao Mundo, porque os homens não respeitam mais os seus preceitos. Assim, quando há uma tempestade, os Negritos procuram evitar a catástrofe mediante oferendas expiatórias de sangue 8. A catástrofe será universal, sem distinção entre pecadores e não-peca-dores, e não será seguida, ao que parece, de uma Nova Criação. Eis por que os Negritos chamam Karei de "o mau", e os Ple-Sakai vêem nele o adversário que lhes "roubou o Paraíso".
Um exemplo particularmente notável é o dos Guaranis do Mato Grosso. Sabendo que a Terra seria destruída pelo fogo e pela água, eles partiram em busca da "Terra sem Males", espécie de Paraíso Terrestre situado além do Oceano. Essas longas migrações, inspiradas pelos pajés e efetuadas sob sua direção, tiveram início no século XTX e prosseguiram até 1912. Algumas tribos acreditavam que a catástrofe seria seguida de uma renovação do Mundo e do regresso dos mortos. Outras tribos aguardavam e desejavam o Fim definitivo do Mundo. Nimuendaju escreveu em 1912: "Não somente os Guaranis, mas toda a natureza está velha e cansada de viver. Mais de uma vez os pajés, quando se encontravam em sonhos com Nanderuvuvu, ouviram a Terra implorar: "Já devorei muitos cadáveres, estou farta e exaurida. Pai, faz com que isso tenha fim!" A água, por seu turno, suplica ao Criador que lhe conceda o repouso e a afaste de toda agitação, assim como as árvores... e a natureza inteira"


Atividades

1. Escreva ao menos um parágrafo explicando o que entendeu a respeito de cada mito narrado. Diga qual a função de cada um deles.
2. Realize uma análise de cada uma delas e responda - considerando o texto das páginas 124, 125 e 126 - quais as características que fazem com que estas narrações possam ser consideradas mitos.
3. Faça uma pesquisa a respeito da história bíblica do dilúvio e compare esta história com o que se diz no texto a respeito dos mitos diluvianos. Em que estas narrações se aproximam? Haveria algum tipo de ligação nos dois casos?

Texto e atividade sobre os mitos na contemporaneidade

Abaixo segue mais um texto do filósofo Mircea Eliade. Este diz respeito aos mitos no mundo contemporâneo, assunto da aula passada. Leia o texto e, fazendo uso também das informações que estão no livro, responda as questões que o seguem.


Mitos e mass media

Pesquisas recentes trouxeram à luz as estruturas míticas das imagens e comportamentos impostos às cole¬tividades por meio da mass media. Esse fenômeno é constatado especialmente nos Estados Unidos. Os personagens dos comic strips (histórias em quadrinhos) apresentam a versão moderna dos heróis mitológicos ou folclóricos. Eles encarnam a tal ponto o ideal de uma grande parte da sociedade, que qualquer mudança em sua conduta típica ou, pior ainda, sua morte, provocam verdadeiras crises entre os leitores; estes reagem violentamente e protestam, enviando milhares de tele¬gramas aos autores dos comic strips e aos diretores dos jornais. Um personagem fantástico, Superman, tornou-se extremamente popular graças, sobretudo, à sua dupla identidade: oriundo de um planeta destruído por sua ca¬tástrofe, e dotado de poderes prodigiosos, ele vive na Terra sob a aparência modesta de um jornalista, Qark Kent; Clark se mostra tímido, apagado, dominado por sua Colega Miriam Lane. Essa camuflagem humilhante de um herói cujos poderes são literalmente ilimitados, re¬vive um tema mítico bastante conhecido. Em última análise, o mito do Superman satisfaz às nostalgias secre¬tas do homem moderno que, sabendo-se decaído e limi¬tado, sonha revelar-se um dia um "personagem ex¬cepcional", um "herói".
O romance policial se prestaria a observações análo¬gas. De um lado, o leitor assiste à luta exemplar entre o Bem e o Mal, entre o herói (=o detetive) e o criminoso (encarnação moderna do Demônio). De outro lado, por um processo inconsciente de projeção e identificação, o leitor participa do mistério e do drama, e tem a sensação de estar pessoalmente envolvido numa ação paradigmá¬tica, isto é, perigosa e "heróica".
A mitificação das personalidades por meio dos mass media, sua transformação em imagem exemplar, foi igualmente analisada. Lloyd Warner, na primeira parte de seu livro, The Living and the Dead, conta-nos a criação de um personagem desse gênero. Biggy Muldoon, um político da Yankee City, que se transformou numa figura nacional em virtude de sua oposição pitoresca à aris¬tocracia de Hill Street, teve uma imagem pública dema¬gógica construída pela imprensa e pelo rádio. Ele era apresentado como um cruzado do povo, atacando a ri¬queza usurpadora. Mais tarde, quando o público se cansou dessa imagem, Biggy foi condescendentemente transformado pelos mass media num vilão, um político corrupto que explorava em seu próprio beneficio a miséria pública. Warner assinala que o verdadeiro Biggy diferia consideravelmente de qualquer das duas imagens, mas que era forçado a modificar o seu estilo de ação a fim de amoldar-se a uma das imagens e combater a outra.
Comportamentos míticos poderiam ser reconhecidos na obsessão do "sucesso", tão característica da sociedade moderna, e que traduz o desejo obscuro de transcender os limites da condição humana; no êxodo para os subúrbios, onde se pode detectar a nostalgia da "perfeição primordial"; na intensidade afetiva que caracteriza o que se denominou de "culto do automóvel sagrado". Como observa Andrew Greeley, "basta visitar o salão anual do automóvel para nele reconhecer uma manifestação reli¬giosa profundamente ritualizada. As cores, as luzes, a música, a reverência dos adoradores, a presença das sacerdotisas do templo (as manequins), a pompa e o esplendor, o esbanjamento de dinheiro, a multidão compacta - tudo isso representaria, em qualquer outra cultura, um ofício nitidamente litúrgico (Conjunto das cerimônias eclesiásticas = Rito).

O culto do carro sagrado tem os seus adeptos e iniciados. Nenhum gnóstico (pessoa que crê) aguardava com maior ansiedade a revelação de um oráculo (resposta da divindade a quem se consultava), do que um adorador do automóvel aguarda os primeiros rumores sobre os novos modelos. É na época do ciclo sazonal anual que os sumos-sacerdotes do culto - os negociantes de carros - assumem uma nova importância, enquanto um público ansioso aguarda impacientemente o advento de uma nova forma de salvação"'.

Questões
1. Onde podemos encontrar versões modernas dos heróis mitológicos? Por que estas figuras encarnam tal posição?
2. Qual a origem do sucesso do personagem Superman? Quais dos mecanismos utilizados para a criação do mito contemporâneo podemos encontrar neste super-herói?
3. O que, nos final das contas, está em jogo nos romances policiais, fazendo com que os mesmos acabem tendo sucesso? Isso acontece também no cinema? Cite ao menos 3 casos nos quais encontramos esse padrão, explicando os elementos que os fazem parecer mitos.
4. O texto fala da criação de um personagem, Biggy Muldoon. O que tal personagem teve que fazer para continuar exercendo influência sobre a população?
5. Que comportamentos míticos podemos encontrar na sociedade contemporânea, e o que está na verdade por trás deste comportamento, determinando-o?
6. O culto ao carro é comparado a um ritual. Quais os elementos utilizados no texto para fazer tal analogia?
7. Com quem são comparados os vendedores de carros?
8. Que outros mitos contemporâneos são possíveis de serem indicados?

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Um pouco de Platão

Olá pessoal!

Na aula passada, na nossa primeira aula, conversamos sobre a origem da Filosofia. Em nosso próximo encontro, vamos falar um pouco a respeito dos primeiros filósofos, dos filósofos da natureza, e pretendo ao menos começar a expor algo sobre a filosofia de Sócrates e Platão.

A respeito do primeiro, gostaria que lessem esse texto da Apologia de Sócrates (é só clicar no link).

Outra coisa que gostaria que vissem é o o que segue logo abaixo, um texto de Platão conhecido como Alegoria da caverna . Ele é, na verdade, uma pequena passagem de uma obra chamada A República.

Na Alegoria da caverna Platão expõe tanto uma espécie de estado das coisas, já que mostra como o homem se encontra em uma situação de ignorância frente aos objetos do mundo, assim como apresenta a saída deste estado e as dificuldades encontradas por aqueles que conseguem "sair" da caverna. As repercussões deste texto são várias, seja na história da filosofia, seja nas artes ou nos comunicação de massa como televisão ou cinema. Se vocês procurarem no Youtbe, por exemplo, encontararão alguns vídeos falando a respeito. Selecionei um que mostra a utilização dos conceitos da alegoria na elaboração do filme Matrix. Está em espanhol, mas o texto é praticamente é o mesmo que segue para vocês aqui.

Bem: leiam com atenção, e depois pensem um pouco a respeito das questões que vão ao final.

Um abraço!



SÓCRATES – Figura-te agora o estado da natureza humana, em relação à ciência e à
ignorância, sob a forma alegórica que passo a fazer. Imagina os homens encerrados em
morada subterrânea e cavernosa que dá entrada livre à luz em toda extensão. Aí, desde a
infância, têm os homens o pescoço e as pernas presos de modo que permanecem imóveis e
só vêem os objetos que lhes estão diante. Presos pelas cadeias, não podem voltar o rosto.
Atrás deles, a certa distância e altura, um fogo cuja luz os alumia; entre o fogo e os cativos
imagina um caminho escarpado, ao longo do qual um pequeno muro parecido com os
tabiques que os pelotiqueiros põem entre si e os espectadores para ocultar-lhes as molas dos
bonecos maravilhosos que lhes exibem.

GLAUCO - Imagino tudo isso.

SÓCRATES - Supõe ainda homens que passam ao longo deste muro, com figuras e objetos que se elevam acima dele, figuras de homens e animais de toda a espécie, talhados em pedra ou madeira. Entre os que carregam tais objetos, uns se entretêm em conversa, outros guardam em silêncio.

GLAUCO - Similar quadro e não menos singulares cativos!

SÓCRATES - Pois são nossa imagem perfeita. Mas, dize-me: assim colocados, poderão ver de si mesmos e de seus companheiros algo mais que as sombras projetadas, à claridade do fogo, na parede que lhes fica fronteira?

GLAUCO - Não, uma vez que são forçados a ter imóveis a cabeça durante toda a vida.

SÓCRATES - E dos objetos que lhes ficam por detrás, poderão ver outra coisa que não as sombras?
GLAUCO - Não.
SÓCRATES - Ora, supondo-se que pudessem conversar, não te parece que, ao falar das sombras que vêem, lhes dariam os nomes que elas representam?

GLAUCO - Sem dúvida.

SÓRATES - E, se, no fundo da caverna, um eco lhes repetisse as palavras dos que passam, não julgariam certo que os sons fossem articulados pelas sombras dos objetos?

GLAUCO - Claro que sim.

SÓCRATES - Em suma, não creriam que houvesse nada de real e verdadeiro fora das figuras que desfilaram.

GLAUCO - Necessariamente.

SÓCRATES - Vejamos agora o que aconteceria, se se livrassem a um tempo das cadeias e do erro em que laboravam. Imaginemos um destes cativos desatado, obrigado a levantar-se de repente, a volver a cabeça, a andar, a olhar firmemente para a luz. Não poderia fazer tudo isso sem grande pena; a luz, sobre ser-lhe dolorosa, o deslumbraria, impedindo-lhe de discernir os objetos cuja sombra antes via. Que te parece agora que ele responderia a quem lhe dissesse que até então só havia visto fantasmas, porém que agora, mais perto da realidade e voltado para objetos mais reais, via com mais perfeição? Supõe agora que, apontando-lhe alguém as figuras que lhe desfilavam ante os olhos, o obrigasse a dizer o que eram. Não te parece que, na sua grande confusão, se persuadiria de que o que antes via era mais real e verdadeiro que os objetos ora contemplados?

GLAUCO - Sem dúvida nenhuma.

SÓCRATES - Obrigado a fitar o fogo, não desviaria os olhos doloridos para as sombras que poderia ver sem dor? Não as consideraria realmente mais visíveis que os objetos ora mostrados?

GLAUCO - Certamente.

SÓCRATES - Se o tirassem depois dali, fazendo-o subir pelo caminho áspero e escarpado, para só o liberar quando estivesse lá fora, à plena luz do sol, não é de crer que daria gritos lamentosos e brados de cólera? Chegando à luz do dia, olhos deslumbrados pelo esplendor ambiente, ser-lhe ia possível discernir os objetos que o comum dos homens tem por serem reais?

GLAUCO - A princípio nada veria.

SÓCRATES - Precisaria de algum tempo para se afazer à claridade da região superior. Primeiramente, só discerniria bem as sombras, depois, as imagens dos homens e outros seres refletidos nas águas; finalmente erguendo os olhos para a lua e as estrelas, contemplaria mais facilmente os astros da noite que o pleno resplendor do dia.

GLAUCO - Não há dúvida.

SÓCRATES - Mas, ao cabo de tudo, estaria, decerto, em estado de ver o próprio sol, primeiro refletido na água e nos outros objetos, depois visto em si mesmo e no seu próprio lugar, tal qual é.

GLAUCO - Fora de dúvida.

SÓCRATES - Refletindo depois sobre a natureza deste astro, compreenderia que é o que produz as estações e o ano, o que tudo governa no mundo visível e, de certo modo, a causa de tudo o que ele e seus companheiros viam na caverna.

GLAUCO - É claro que gradualmente chegaria a todas essas conclusões.

SÓCRATES - Recordando-se então de sua primeira morada, de seus companheiros de escravidão e da idéia que lá se tinha da sabedoria, não se daria os parabéns pela mudança sofrida, lamentando ao mesmo tempo a sorte dos que lá ficaram?

GLAUCO - Evidentemente.

SÓCRATES - Se na caverna houvesse elogios, honras e recompensas para quem melhor e mais prontamente distinguisse a sombra dos objetos, que se recordasse com mais precisão dos que precediam, seguiam ou marchavam juntos, sendo, por isso mesmo, o mais hábil em lhes predizer a aparição, cuidas que o homem de que falamos tivesse inveja dos que no cativeiro eram os mais poderosos e honrados? Não preferiria mil vezes, como o herói de Homero, levar a vida de um pobre lavrador e sofrer tudo no mundo a voltar às primeiras ilusões e viver a vida que antes vivia?

GLAUCO - Não há dúvida de que suportaria toda a espécie de sofrimentos de preferência a viver da maneira antiga.

SÓCRATES - Atenção ainda para este ponto. Supõe que nosso homem volte ainda para a caverna e vá assentar-se em seu primitivo lugar. Nesta passagem súbita da pura luz à obscuridade, não lhe ficariam os olhos como submersos em trevas?

GLAUCO - Certamente.

SÓCRATES - Se, enquanto tivesse a vista confusa -- porque bastante tempo se passaria antes que os olhos se afizessem de novo à obscuridade -- tivesse ele de dar opinião sobre as sombras e a este respeito entrasse em discussão com os companheiros ainda presos em cadeias, não é certo que os faria rir? Não lhe diriam que, por ter subido à região superior, cegara, que não valera a pena o esforço, e que assim, se alguém quisesse fazer com eles o mesmo e dar-lhes a liberdade, mereceria ser agarrado e morto?

GLAUCO - Por certo que o fariam.

SÓCRATES - Pois agora, meu caro GLAUCO, é só aplicar com toda a exatidão esta imagem da caverna a tudo o que antes havíamos dito. O antro subterrâneo é o mundo visível. O fogo que o ilumina é a luz do sol. O cativo que sobe à região superior e a contempla é a alma que se eleva ao mundo inteligível. Ou, antes, já que o queres saber, é este, pelo menos, o meu modo de pensar, que só Deus sabe se é verdadeiro. Quanto à mim, a coisa é como passo a dizer-te. Nos extremos limites do mundo inteligível está a idéia do bem, a qual só com muito esforço se pode conhecer, mas que, conhecida, se impõe à razão como causa universal de tudo o que é belo e bom, criadora da luz e do sol no mundo visível, autora da inteligência e da verdade no mundo invisível, e sobre a qual, por isso mesmo, cumpre ter os olhos fixos para agir com sabedoria nos negócios particulares e públicos.
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As questões são as seguinte:

1) Podemos confiar nas aparências?
2) Como podemos conhecer a verdade de um reflexo?
3) É confortável o processo de encontro com a realidade?
4) Por que o texto se inicia falando sobre educação? Qual a relação entre a educação, o conhecimento e a realidade?

terça-feira, 16 de junho de 2009

Sobre Kant





O que há de importante, para nós, em Kant.

O que é a razão?

A razão é uma estrutura vazia, uma forma pura sem conteúdos. Essa estrutura (e não os conteúdos) é que é universal, a mesma para todos os seres humanos, em todos os tempos e lugares. Essa estrutura é inata, isto é, não é adquirida através da experiência. Por ser inata e não depender da experiência para existir, a razão é, do ponto de vista do conhecimento, anterior à experiência. Ou, como escreve Kant, a estrutura da razão é a priori (vem antes da experiência e não depende dela).

Porém, os conteúdos que a razão conhece e nos quais ela pensa, esses sim, dependem da experiência. Sem ela, a razão seria sempre vazia, inoperante, nada conhecendo. Assim, a experiência fornece a matéria (os conteúdos) do conhecimento para a razão e esta, por sua vez, fornece a forma (universal e necessária) do conhecimento. A matéria do conhecimento, por ser fornecida pela experiência, vem depois desta e por isso é, no dizer de Kant, a posteriori.

Qual o engano dos inatistas? Supor que os conteúdos ou a matéria do conhecimento são inatos. Não existem idéias inatas.

Qual o engano dos empiristas? Supor que a estrutura da razão é adquirida por experiência ou causada pela experiência. Na verdade, a experiência não é causa das idéias, mas é a ocasião para que a razão, recebendo a matéria ou o conteúdo, formule as idéias.

Dessa maneira, a estrutura da razão é inata e universal, enquanto os conteúdos são empíricos e podem variar no tempo e no espaço, podendo transformar-se com novas experiências e mesmo revelarem-se falsos, graças a experiências novas.

O que é o conhecimento racional, sem o qual não há Filosofia nem ciência?

É a síntese que a razão realiza entre uma forma universal inata e um conteúdo particular oferecido pela experiência.

Qual é a estrutura da razão?

A razão é constituída por três estruturas a priori:

1. a estrutura ou forma da sensibilidade, isto é, a estrutura ou forma da percepção sensível ou sensorial;

2. a estrutura ou forma do entendimento, isto é, do intelecto ou inteligência;

3. a estrutura ou forma da razão propriamente dita, quando esta não se relaciona nem com os conteúdos da sensibilidade, nem com os conteúdos do entendimento, mas apenas consigo mesma. Como, para Kant, só há conhecimento quando a experiência oferece conteúdos à sensibilidade e ao entendimento, a razão, separada da sensibilidade e do entendimento, não conhece coisa alguma e não é sua função conhecer. Sua função é a de regular e controlar a sensibilidade e o entendimento. Do ponto de vista do conhecimento, portanto, a razão é a função reguladora da atividade do sujeito do conhecimento.

O novo iluminismo




Para Jürgen Habermas, filósofo alemão contemporâneo, o paradigma da consciência encontra-se esgotado e deve ser substituído pelo paradigma da compreensão mútua entre os sujeitos capazes de falar e de agir.

Esse paradigma tem por base a atitude performativa dos participantes da interação que coordenam seus planos de ação, por meio de um acordo entre si, sobre qualquer coisa no mundo.

O exercício da razão plena — ou seja, aquela que reúne exigências da ciência (verdade proposicional), da moral (justeza normativa) e da arte (veracidade subjetiva e coerência estética) — é a tarefa do novo lluminismo, que deve mostrar aos defensores do irracionalismo que a crítica não-racional leva ao conformismo, uma vez que, sem o trabalho conceituai, não há como sair da facticidade, ou seja, do vivido.
Assim, a nova razão crítica precisa:

• fazer a crítica dos limites internos e externos da razão, consciente de sua
vulnerabilidade ao irracional;
• estabelecer os princípios éticos que fundamentam sua função normativa;
• vincular essa construção a raízes sociais contemporâneas, submetendo-a à prova de realidade. Esse solo social aparece no processo comunicativo, dentro do qual
os sujeitos propõem e criticam argumentos, criticam as motivações subjacentes
e desenvolvem as capacidades humanas de saber, de busca da verdade, da justiça e da autonomia.

A crise da razão




Aqui vai o trecho a partir do qual estudamos o momento no qual a razão passa a ser colocada em xeque pela filosofia. Acima, os filósofos Adorno e Horkheimer, que escreveram a Dialética do Esclarecimento.

No final do século XX, testemunhou-se o despertar de um movimento irracionalista — chamado de desconstrutivismo ou pós-modernismo, que critica o uso da razão como arma do poder e agente da repressão, em vez de ser instrumento da liberdade humana, como proclamado pelo lluminismo do século XVIII.

Seguindo essa corrente, vemos florescer o individualismo exacerbado, o narcisismo, o vale-tudo, a desrazão que leva ao aniquilamento de todos os princípios e valores.
Mas será que podemos atribuir a culpa pelos descaminhos ao uso da razão? Na verdade, os conceitos de razão e de crítica devem ser reexaminados.

Quando falamos em razão, não mais acreditamos ingenuamente que só pelo fato de sermos humanos, sejamos automaticamente racionais. Devemos, a partir dos estudos de Marx e de Freud, admitir que a razão pode também ser deturpadora e pervertida, ou seja, aceitar que tanto a ideologia (ou falsa consciência) quanto os impulsos do inconsciente são responsáveis por distorções que colocam a razão a serviço da mentira e do poder.

Exemplificando: quando a racionalidade assume as vestes de razão de Estado ou de razão econômica, estamos lidando com uma visão parcial e instrumental da razão que tenta adequar meios a fins. É a razão que observa e normaliza, que calcula, classifica e domina, em função de interesses de classes, e não de interesses da sociedade como um todo. E se o poder que oprime fala em nome da racionalidade, para combatê-lo parece necessário contestar a própria razão. Esse tipo de racionalidade deve ser contestado, mas não por meio do irracionalismo, e sim pela atividade crítica da razão mais completa e mais rica, que dialoga e se exerce na intersubjetividade.


segunda-feira, 11 de maio de 2009

Os empiristas - Aulas dos dias 06 e 13 de Maio



Meus caros: no dia 06/05 eu dei uma aula a respeito do empirismo, explicando em linhas gerais os pensamentos tanto de John Locke quanto de David Hume.

Conversamos sobre a questão da origem das idéias para os empiristas, nos focando, de início, em John Locke e sua distinção entre sensação e reflexão. Expliquei também a questão das idéias simples e complexas.

Já no final da aula falei um pouco sobre David Hume explicando que, ao considerarmos a sua forma de perceber o desenvolvimento das idéias abstratas, é possível dizer que ele se tratava de um empirista ainda mais redical do que Locke.

O texto que segue abaixo, e que foi distribuído para vocês no dia 13/05, é um complemento sobre a filosofia de Hume e sobre a questão do empirismo. Por favor, respondam as questões e me entreguem no máximo até o dia 20/05.

Um abraço a todos,
Fabiano


Os empiristas

No decorrer da história da Filosofia muitos filósofos defenderam a tese empirista, mas os mais famosos e conhecidos são os filósofos ingleses dos séculos XVI ao XVIII, chamados, por isso, de empiristas ingleses: Francis Bacon, John Locke, George Berkeley e David Hume. Na verdade, o empirismo é uma característica muito marcante da filosofia inglesa. Na Idade Média, por exemplo, filósofos importantes como Roger Bacon e Guilherme de Ockham eram empiristas; em nossos dias, Bertrand Russell foi um empirista. Que dizem os empiristas?
Nossos conhecimentos começam com a experiência dos sentidos, isto é, com as sensações. Os objetos exteriores excitam nossos órgãos dos sentidos e vemos cores, sentimos sabores e odores, ouvimos sons, sentimos a diferença entre o áspero e o liso, o quente e o frio, etc.
As sensações se reúnem e formam uma percepção; ou seja, percebemos uma única coisa ou um único objeto que nos chegou por meio de várias e diferentes sensações. Assim, vejo uma cor vermelha e uma forma arredondada, aspiro um perfume adocicado, sinto a maciez e digo: “Percebo uma rosa”. A “rosa” é o resultado da reunião de várias sensações diferentes num único objeto de percepção.
As percepções, por sua vez, se combinam ou se associam. A associação pode dar-se por três motivos: por semelhança, por proximidade ou contigüidade espacial e por sucessão temporal. A causa da associação das percepções é a repetição. Ou seja, de tanto algumas sensações se repetirem por semelhança, ou de tanto se repetirem no mesmo espaço ou próximas umas das outras, ou, enfim, de tanto se repetirem sucessivamente no tempo, criamos o hábito de associá-las. Essas associações são as idéias. As idéias, trazidas pela experiência, isto é, pela sensação, pela percepção e pelo hábito, são levadas à memória e, de lá, a razão as apanha para formar os pensamentos.
A experiência escreve e grava em nosso espírito as idéias, e a razão irá associá-las, combiná-las ou separá-las, formando todos os nossos pensamentos. Por isso, David Hume dirá que a razão é o hábito de associar idéias, seja por semelhança, seja por diferença. O exemplo mais importante (por causa das conseqüências futuras) oferecido por Hume para mostrar como formamos hábitos racionais é o da origem do princípio da causalidade (razão suficiente).
A experiência me mostra, todos os dias, que, se eu puser um líquido num recipiente e levar ao fogo, esse líquido ferverá, saindo do recipiente sob a forma de vapor. Se o recipiente estiver totalmente fechado e eu o destampar, receberei um bafo de vapor, como se o recipiente tivesse ficado pequeno para conter o líquido.
A experiência também me mostra, todo o tempo, que se eu puser um objeto sólido (um pedaço de vela, um pedaço de ferro) no calor do fogo, não só ele se derreterá, mas também passará a ocupar um espaço muito maior no interior do recipiente. A experiência também repete constantemente para mim a possibilidade que tenho de retirar um objeto preso dentro de um outro, se eu aquecer este último, pois, aquecido, ele solta o que estava preso no seu interior, parecendo alargar-se e aumentar de tamanho.
Experiências desse tipo, à medida que vão se repetindo sempre da mesma maneira, vão criando em mim o hábito de associar o calor com certos fatos. Adquiro o hábito de perceber o calor e, em seguida, um fato igual ou semelhante a outros que já percebi inúmeras vezes. E isso me leva a dizer: “O calor é a causa desses fatos”. Como os fatos são de aumento do volume ou da dimensão dos corpos submetidos ao calor, acabo concluindo: “O calor é a causa da dilatação dos corpos” e também “A dilatação dos corpos é o efeito do calor”. É assim, diz Hume, que nascem as ciências. São elas, portanto, hábito de associar idéias, em conseqüência das repetições da experiência.
Ora, ao mostrar como se forma o princípio da causalidade, Hume não está dizendo apenas que as idéias da razão se originam da experiência, mas está afirmando também que os próprios princípios da racionalidade são derivados da experiência. Mais do que isso. A razão pretende, através de seus princípios, seus procedimentos e suas idéias, alcançar a realidade em seus aspectos universais e necessários. Em outras palavras, pretende conhecer a realidade tal como é em si mesma, considerando que o que conhece vale como verdade para todos os tempos e lugares (universalidade) e indica como as coisas são e como não poderiam, de modo algum, ser de outra maneira (necessidade).
Ora, Hume torna impossível tanto a universalidade quanto a necessidade pretendidas pela razão. O universal é apenas um nome ou uma palavra geral que usamos para nos referirmos à repetição de semelhanças percebidas e associadas. O necessário é apenas o nome ou uma palavra geral que usamos para nos referirmos à repetição das percepções sucessivas no tempo. O universal, o necessário, a causalidade são meros hábitos psíquicos.


Atividades a partir do texto

1) De que forma, para os empiristas, o nosso conhecimento se inicia? Explique detalhadamente.
2) Como se constrói uma percepção? No que ela se diferencia da sensação?
3) O que são idéias?
4) Como se forma, para os filósofos empiristas, o nosso pensamento?
5) Como, para Hume, chegamos ao entendimento das relações de causa e efeito? O que são, para ele, as ciências?
6) É correto afirmar que, para Hume, as idéias não se iniciam na experiência? Justifique a sua resposta.
7) Para o filósofo escocês, o que deseja a razão?
8) O que são o universal e o necessário?

Texto sobre Descartes


Pessoal: aqui segue o texto que eu passei pra vocês em sala de aula, pedindo que me entregassem as atividades - que também seguem abaixo -. Trata-se, obviamente, de um complemento da parte do nosso livro que trata sobre o racionalismo (ver páginas 112 e 113).

Acaso alguém tenha faltado e ainda não tenha feito, por favor, responda as questões e me entregue.

Abraço,
Fabiano




Descartes e o racionalismo

1. Diferença entre o racionalismo e o empirismo

Para o racionalismo, a fonte do conhecimento verdadeiro é a razão operando por si mesma, sem o auxílio da experiência sensível e controlando a própria experiência sensível.
Para o empirismo, a fonte de todo e qualquer conhecimento é a experiência sensível, responsável pelas idéias da razão e controlando o trabalho da própria razão.
Essas diferenças, porém, não impedem que haja um elemento comum a todos os filósofos a partir da modernidade, qual seja, tomar o entendimento humano como objeto da investigação filosófica.
Tornar o entendimento objeto para si próprio, tornar o sujeito do conhecimento objeto de conhecimento para si mesmo é a grande tarefa que a modernidade filosófica inaugura, ao desenvolver a teoria do conhecimento. Como se trata da volta do conhecimento sobre si mesmo para conhecer-se, ou do sujeito do conhecimento colocando-se como objeto para si mesmo, a teoria do conhecimento é a reflexão filosófica.
Os gregos indagavam: como o erro é possível? Os modernos perguntaram: como a verdade é possível? Para os gregos, a verdade era aletheia, para os modernos, veritas. Em outras palavras, para os modernos trata-se de compreender e explicar como os relatos mentais – nossas idéias – correspondem ao que se passa verdadeiramente na realidade. Apesar dessas diferenças, os filósofos retomaram o modo de trabalhar filosoficamente proposto por Sócrates, Platão e Aristóteles, qual seja, começar pelo exame das opiniões contrárias e ilusórias para ultrapassá-las em direção à verdade.
Antes de abordar o conhecimento verdadeiro, Descartes examinou exaustivamente as causas e as formas do erro, inaugurando um estilo filosófico que permanecerá na Filosofia, isto é, a análise dos preconceitos e do senso comum.

Descartes localizava a origem do erro em duas atitudes que chamou de atitudes infantis:

1. a prevenção, que é a facilidade com que nosso espírito se deixa levar pelas opiniões e idéias alheias, sem se preocupar em verificar se são ou não verdadeiras. São as opiniões que se cristalizam em nós sob a forma de preconceitos (colocados em nós por pais, professores, livros, autoridades) e que escravizam nosso pensamento, impedindo-nos de pensar e de investigar;

2. a precipitação, que é a facilidade e a velocidade com que nossa vontade nos faz emitir juízos sobre as coisas antes de verificarmos se nossas idéias são ou não são verdadeiras. São opiniões que emitimos em conseqüência de nossa vontade ser mais forte e poderosa do que nosso intelecto. Originam-se no conhecimento sensível, na imaginação, na linguagem e na memória.
Descartes também está convencido de que é possível vencer esses efeitos, graças a uma reforma do entendimento e das ciências. Essa reforma pode ser feita pelo sujeito do conhecimento, se este decidir e deliberar pela necessidade de encontrar fundamentos seguros para o saber. Para isso Descartes criou um procedimento, a dúvida metódica, pela qual o sujeito do conhecimento, analisando cada um de seus conhecimentos, conhece e avalia as fontes e as causas de cada um, a forma e o conteúdo de cada um, a falsidade e a verdade de cada um e encontra meios para livrar-se de tudo quanto seja duvidoso perante o pensamento. Ao mesmo tempo, o pensamento oferece ao espírito um conjunto de regras que deverão ser obedecidas para que um conhecimento seja considerado verdadeiro.
Para Descartes, o conhecimento sensível (isto é, sensação, percepção, imaginação, memória e linguagem) é a causa do erro e deve ser afastado. O conhecimento verdadeiro é puramente intelectual, parte das idéias inatas e controla (por meio de regras) as investigações filosóficas, científicas e técnicas.

Inatismo cartesiano

Descartes discute a teoria das idéias inatas em várias de suas obras, mas as exposições mais conhecidas encontram-se em duas delas: no Discurso do método e nas Meditações metafísicas. Nelas, Descartes mostra que nosso espírito possui três tipos de idéias que se diferenciam segundo sua origem e qualidade:

1. Idéias adventícias (isto é, vindas de fora): são aquelas que se originam de nossas sensações, percepções, lembranças; são as idéias que nos vêm por termos tido a experiência sensorial ou sensível das coisas a que se referem. Por exemplo, a idéia de árvore, de pássaro, de instrumentos musicais, etc. São nossas idéias cotidianas e costumeiras, geralmente enganosas ou falsas, isto é, não correspondem à realidade das próprias coisas.
Assim, andando à noite por uma floresta, vejo fantasmas. Quando raia o dia, descubro que eram galhos retorcidos de árvores que se mexiam sob o vento. Olho para o céu e vejo, pequeno, o Sol. Acredito, então, que é menor do que a Terra, até que os astrônomos provem racionalmente que ele é muito maior do que ela.

2. Idéias fictícias: são aquelas que criamos em nossa fantasia e imaginação, compondo seres inexistentes com pedaços ou partes de idéias adventícias que estão em nossa memória. Por exemplo, cavalo alado, fadas, elfos, duendes, dragões, Super-Homem, etc. São as fabulações das artes, da literatura, dos contos infantis, dos mitos, das superstições.
Essas idéias nunca são verdadeiras, pois não correspondem a nada que exista realmente e sabemos que foram inventadas por nós, mesmo quando as recebemos já prontas de outros que as inventaram.

3. Idéias inatas: são aquelas que não poderiam vir de nossa experiência sensorial porque não há objetos sensoriais ou sensíveis para elas, nem poderiam vir de nossa fantasia, pois não tivemos experiência sensorial para compô-las a partir de nossa memória. As idéias inatas são inteiramente racionais e só podem existir porque já nascemos com elas. Por exemplo, a idéia do infinito (pois não temos qualquer experiência do infinito), as idéias matemáticas (a matemática pode trabalhar com a idéia de uma figura de mil lados, o quiliógono, e, no entanto, jamais tivemos e jamais teremos a percepção de uma figura de mil lados).
Essas idéias, diz Descartes, são “a assinatura do Criador” no espírito das criaturas racionais, e a razão é a luz natural inata que nos permite conhecer a verdade. Como as idéias inatas são colocadas em nosso espírito por Deus, serão sempre verdadeiras, isto é, sempre corresponderão integralmente às coisas a que se referem, e, graças a elas, podemos julgar quando uma idéia adventícia é verdadeira ou falsa e saber que as idéias fictícias são sempre falsas (não correspondem a nada fora de nós).
Ainda segundo Descartes, as idéias inatas são as mais simples que possuímos (simples não quer dizer “fáceis”, e sim não-compostas de outras idéias). A mais famosa das idéias inatas cartesianas é o “Penso, logo existo”. Por serem simples, as idéias inatas são conhecidas por intuição e são elas o ponto de partida da dedução racional e da indução, que conhecem as idéias complexas ou compostas.
A tese central dos inatistas é a seguinte: se não possuirmos em nosso espírito a razão e a verdade, nunca teremos como saber se um conhecimento é verdadeiro ou falso, isto é, nunca saberemos se uma idéia corresponde ou não à realidade a que ela se refere. Não teremos um critério seguro para avaliar nossos conhecimentos.




Atividades a partir do texto

1. Qual a diferença, no que diz respeito à fonte do conhecimento, entre racionalismo e empirismo?
2. Explique qual é a grande tarefa da filosofia moderna através da análise da seguinte passagem: “tornar o sujeito do conhecimento objeto de conhecimento para si mesmo”.
3. O que seria a verdade para os modernos?
4. Explique detalhadamente quais são, para Descartes, a duas principais fontes de erro, criando um exemplo para cada uma delas.
5. O que é, na filosofia cartesiana, a dúvida metódica ou hiperbólica?
6. Como o filósofo francês pensava, julgava o conhecimento sensível e o racional?
7. Quais as duas principais obras de Descartes?
8. Quais são, para ele, os três diferentes tipos de idéias? Explique como se formam, a que se referem e como são valoradas cada um destes tipos.
9. Explique porque, para Descartes, as idéias inatas são tão importantes.
10. Qual a tese essencial dos inatistas?