segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Texto de Mircea Eliade a respeito dos mitos - de cura e cosmogônicos

Os trechos abaixo fazem parte da obra de um filósofo romeno chamado Mirca Eliade (197-1986). Leiam com atenção, e depois respondam as questões que se seguirão aos textos.


A esse respeito é interessante relembrar que, entre os Navajo, o mito cosmogônico, seguido do mito da saída dos primeiros homens do seio da Terra, é recitado sobretudo por ocasião das curas ou durante a iniciação de um xamã. "Todas as cerimônias são centralizadas ao redor de um paciente, Hatrali (aquele sobre o qual se canta), que pode ser um doente ou simplesmente um enfermo mental como, por exemplo, um sujeito assustado por um sonho, ou alguém que necessita de uma cerimônia apenas para aprendê-la no curso de sua iniciação à capacidade de oficiar aquele canto, pois um medicine-man não pode efetuar uma cerimônia de cura enquanto ele mesmo não se submeteu à cerimônia". A cerimônia inclui igualmente a execução de desenhos complexos sobre a areia, que simbolizam as diferentes etapas da Criação e a história mítica dos deuses, dos ancestrais e da humanidade. Esses desenhos (que se assemelham estranhamente aos mandala indo-tibetanos) reatualizam um após outro os eventos ocorridos nos tempos míticos. Ouvindo a narrativa do mito cosmogônico (seguido da recitação dos mitos de origem) e contemplando os desenhos sobre a areia, o doente é projetado para fora do tempo profano e inserido na plenitude do Tempo primordial: ele é conduzido "para trás" até à origem do Mundo e assiste, assim, à cosmogonia.
A solidariedade entre o mito cosmogônico, o mito de origem da enfermidade e do remédio, e o ritual da cura mágica, pode ser admiravelmente bem observada entre os Na-khi, povo pertencente à família tibetana, mas que vive há muitos séculos no Sudeste da China, e especialmente, na província de Yün-nan. De acordo com as suas tradições, o Universo, no princípio, estava judiciosamente divi¬dido entre os Nâgas e os homens, mas uma inimizade os separou posteriormente. Furibundos, os Nâgas disseminaram pelo mundo as enfermidades, a esterilidade e todos os tipos de flageles. Os Nâgas podem igualmente roubar as almas dos homens, fazendo com que adoeçam. Se eles não forem ritualmente apaziguados, a vítima perece. Mas o sacerdote-xamã (dto-mba), pelo poder de seus encantamentos mágicos, é capaz de forçar os Nâgas a libertarem as almas roubadas e aprisionadas. O próprio xamã só é capaz de lutar contra os Nâgas porque o Xamã primordial, Dto-mba, com o concurso de Ganida, empreendeu essa luta no Tempo mítico. Ora, o ritual de cura consiste, a rigor, na recitação solene desse evento primordial. Como diz expressamente um texto traduzido por Rock: "Se não se conta a origem de Garuda, não se deve falar nele" 12. O xamã recita, pois, o mito da origem de Garuda: ele conta como os ovos foram criados por meio de magia sobre o Monte Kailasa e como desses ovos nasceram os Ganidas, que mais tarde desceram à planície para defender os homens das enfermidades provocadas pelos Nâgas. Mas, antes de contar o nascimento dos Garudas, o cântico ritual descreve rapidamente a criação do Mundo. "No tempo em que o céu apareceu, expandiram-se o sol, a lua, as estrelas, os planetas e a terra; quando surgiram as montanhas, os vales, as árvores e as rochas... naquele momento apareceram os Nâgas e os dragões, etc.".
A maioria desses cantos rituais de fins terapêuticos começa por evocar a cosmogonia. Eis um exemplo: "No princípio, no tempo em que os céus, o sol, a lua, as estrelas, os planetas e a terra ainda não haviam aparecido, quando ainda nada havia aparecido, etc." 14. E conta-se a criação do mundo, o nascimento dos demônios e o aparecimento das enfermidades, e, finalmente, a epifania do Xamã primordial Dto-mba, que forneceu os medicamentos necessários. Um outro texto 15 começa pela evocação do tempo mítico: "No começo, quando tudo era indistinto, etc.", para contar o nascimento dos Nâgas e dos Garudas. A seguir é contada a origem da doença (pois, como vimos mais acima, "se não se conta a origem do medicamento, não se deve utilizá-lo"), os meios pelos quais é propagada de uma geração a outra e, finalmente, a luta entre os demônios e o xamã: "O espírito, arremessando a flecha, dá doença aos dentes e à boca, o dto-mba arranca a flecha, etc.; o demônio dá doença ao corpo, arremessando a flecha no corpo, o dto-mba a arranca, etc." ,
Um outro canto ritual começa da seguinte maneira: "Ê preciso contar a origem do remédio, caso contrário não se pode falar nele. No tempo em que apareceram o céu, as estrelas, o sol, a lua e os planetas, e em que apareceu aterra", etc., "naquele tempo nasceu Ts'o-dze-p'er-ddu", Segue-se um mito muito longo, que explica a origem dos medicamentos: ausentando-se durante três dias de casa, Ts'o-dze-p'er-ddu encontra, ao regressar, seus pais mortos. Decide então partir em busca de um medicamento que impeça a morte, e vai para o país do Chefe dos Espíritos. Após inúmeras aventuras, ele rouba os medicamentos miraculosos, mas, perseguido pelo Espírito, cai por terra e os medicamentos se dispersam, dando existência às plantas medicinais.
Os mitos do Dilúvio são os mais numerosos e quase universalmente conhecidos. Ao lado dos mitos diluvianos, outros relatam a destruição da humanidade por cataclismos de proporções cósmicas: tremores de terra, incêndios, desabamento de montanhas, epidemias, etc. Evidentemente, esse Fim do Mundo não foi radical: foi antes o Fim de uma humanidade, a que se seguiu o aparecimento de uma nova humanidade. Mas a imersão total da Terra hás Águas ou sua destruição pelo fogo, seguida pela emersão de uma Terra virgem, simbolizam a regressão ao Caos e à cosmogonia.
Em grande número de mitos, o Dilúvio está relacionado a uma falha ritual, que provocou a cólera do Ente Supremo; algumas vezes, resulta simplesmente da vontade de um Ente divino de acabar com a humanidade. Mas, ao examinar os mitos que anunciam o Dilúvio próximo, constatamos que uma das causas principais reside nos pecados dos homens, assim como na decrepitude do Mundo. O Dilúvio abriu o caminho para uma recriação do Mundo e, simultaneamente, para uma regeneração da humanidade. Em outros termos, o Fim do Mundo no passado, e aquele que terá lugar no futuro, representam a projeção gigantesca, em escala macrocósmica e com uma intensidade dramática excepcional, do sistema mítico-ritual da festa do Ano Novo.
Os mais raros dentre os mitos primitivos sobre o Fim são os que não apresentam indicações precisas concernentes à eventual recriação do Mundo. Assim, na crença dos Kai da Nova Guiné, o Criador. Mâlengfung, após haver criado o Cosmo e o homem, retirou-se para o ponto mais extremo do Mundo, o horizonte, e adormeceu. Todas as vezes que ele se vira em seu sono, a Terra estremece. Um dia, porém, ele se erguerá de seu leito e destruirá o Céu, que se abaterá sobre a Terra e porá termo i toda a vida5. Em Namolut, uma das ilhas Carolinas, foi registrada a crença de que o Criador um dia destruirá a humanidade por causa de seus pecados. Mas os deuses continuarão a existir — o que implica a possibilidade de "uma nova criação". Em Aurepik, outra ilha das Carolinas, é o filho do Criador o responsável pela catástrofe. Quando ele perceber que o chefe de uma ilha não mais se ocupa de seus súditos, submergirá a ilha por meio de um ciclone l Também aqui não é certo que se trate de um Fim definitivo: a idéia de uma punição dos "pecados" implica geralmente a criação ulterior de uma nova humanidade.
Mais difíceis de interpretar são as crenças dos Negritos da Península de Malaca. Eles sabem que, um dia, K arei porá termo ao Mundo, porque os homens não respeitam mais os seus preceitos. Assim, quando há uma tempestade, os Negritos procuram evitar a catástrofe mediante oferendas expiatórias de sangue 8. A catástrofe será universal, sem distinção entre pecadores e não-peca-dores, e não será seguida, ao que parece, de uma Nova Criação. Eis por que os Negritos chamam Karei de "o mau", e os Ple-Sakai vêem nele o adversário que lhes "roubou o Paraíso".
Um exemplo particularmente notável é o dos Guaranis do Mato Grosso. Sabendo que a Terra seria destruída pelo fogo e pela água, eles partiram em busca da "Terra sem Males", espécie de Paraíso Terrestre situado além do Oceano. Essas longas migrações, inspiradas pelos pajés e efetuadas sob sua direção, tiveram início no século XTX e prosseguiram até 1912. Algumas tribos acreditavam que a catástrofe seria seguida de uma renovação do Mundo e do regresso dos mortos. Outras tribos aguardavam e desejavam o Fim definitivo do Mundo. Nimuendaju escreveu em 1912: "Não somente os Guaranis, mas toda a natureza está velha e cansada de viver. Mais de uma vez os pajés, quando se encontravam em sonhos com Nanderuvuvu, ouviram a Terra implorar: "Já devorei muitos cadáveres, estou farta e exaurida. Pai, faz com que isso tenha fim!" A água, por seu turno, suplica ao Criador que lhe conceda o repouso e a afaste de toda agitação, assim como as árvores... e a natureza inteira"


Atividades

1. Escreva ao menos um parágrafo explicando o que entendeu a respeito de cada mito narrado. Diga qual a função de cada um deles.
2. Realize uma análise de cada uma delas e responda - considerando o texto das páginas 124, 125 e 126 - quais as características que fazem com que estas narrações possam ser consideradas mitos.
3. Faça uma pesquisa a respeito da história bíblica do dilúvio e compare esta história com o que se diz no texto a respeito dos mitos diluvianos. Em que estas narrações se aproximam? Haveria algum tipo de ligação nos dois casos?

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